No âmago da mente

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Poema do Sol

Izabella Pena
Sol que dá vida
Que ilumina, aquece, regenera...
Mas sol também da solidão
e do soluço que causa
a perda de uma paixão

Sol da solitária solista
que vê o sol em simples notas soltas
constantes, sólidas, solícitas
soladas naquela velha viola
que silenciam os solilóquios
e também a sola dos meu sapatos

Sol das notas que invadem o salão,
enquanto a viola gentilmente chora
solenes notas que assolam, isolam
e dissolvem o sol da solidão.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ingenuidade


Izabella Pena
Aumente o rádio
Semente no campo
Comida pro gado
A fome acabou
com a mente na mão

Mas a semente é cara
E, se por acaso há,
mente prudente,
desmente veemente
e acaba sua história.

Ao acabar, recomeça:
Aumente o rádio...
querem ouvir
a fome acabar

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sem sobra ao título


Izabella Pena
Segredo que sempre se sentiu
Suscinto o sopro sussurrado
sobre o solo salgado
e somente sobra o sertão solitário
sem sorte, sim senhor...
Só morte, sangria o suporte!
sangueira é sambada
em sequaz sepulto
e, saltita o senhor.
Serra a serra serrada
serrania seviciada
nos silencia, segreda
e sintetiza a solidão

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Leis da Estressodinâmica

Izabella A Pena

Estávamos eu e meu amigo Chico Lobo jogando futebol hoje quando tivemos um insight sobre as condições físicas que explicam o contágio do estresse entre os animais humanos. Foi de um parto normal e simples que nasceram as primeiras leis da Estressodinâmica.

Normalmente nervoso e chingador, Chico resolveu chingar os outros colegas de futebol e incitá-los à raiva. Conseguiu, causando conflitos e estresse coletivos, principalmente em outro futebolista, chamado Quelé.

Percebemos, pois que corpos em contato (seja um contato corporal, verbal ou visual) com diferentes valores de Coeficiente de Estresse (ou Stress coefficient - Sc), o corpo de maior Sc tende a passar stress para o corpo de menor Sc até que atinjam um mesmo grau de estresse, o equilíbrio estressodinâmico. Estresse seria, portanto uma forma de energia em trânsito, como exemplificado na figura 1.

Porém, ao verificar a efetiva passagem de energia em trânsito do corpo de maior Stress coefficient (Chico Lobo - "A") para o corpo de menor Sc (Quelé - "B"), percebemos que ao entrarem em contato com um terceiro corpo (Cabranhas- "C") foi possível a verificação de uma passagem de estresse para o terceiro corpo. Em sistema hermeticamente fechado, o Sc se manteve em equilíbrio estressodinâmico entre os três corpos, mostrando que na impossibilidade de dissipação de estresse, a energia se conservou no sistema e o coeficiente (Sc) se manteve constante. Estas observações caracterizam a Lei zero da Estressodinâmica, que postula que se "A" e "B" são dois corpos em equilíbrio estressodinâmico com um terceiro corpo "C", então "A" e "B" estão em equilíbrio estressodinâmico um com o outro, ou seja: o coeficiente de estresse do sistema é o mesmo.

Aumentando o número de dados avaliados e situações analisadas, pudemos reunir provas e informações importantes para criar a Primeira Lei da Estressodinâmica. Verificamos que havia uma relação diretamente proporcional entre o coeficiente de estresse individual e a realização de trabalho. Assim foi observada uma maior disposição para irritação do corpo B após a transferência de estresse oriunda do contato com o corpo A. Isso mostra que em um sistema quimicamente isolado no qual há transferências de estresse (Sc) e realização de trabalho (W), há uma conservação de estresse aplicada.

Com base em dados experimentais adicionais, obtidos através de experimentos com mulheres em períodos pré-menstruais e de corintianos após os primeiros dias de segunda divisão, foi possível observar que as entropias dos corpos-alvo, isolados em sistema fechado, tenderam a incrementar-se com o tempo, até o alcançar de um valor máximo, portanto é possível que haja alguma relação entre o coeficiente de stress e a entropia do sistema. Isto é análogo a um sistema gasoso real e hermeticamente fechado, cujas partículas tendem a ocupar o espaço e realizar choques entre si, tal como se colocarmos mulheres em época de tensão pré-menstrual num sistema fechado... que não preciso continuar a descrever.

Porém, quando os corpos-alvo foram colocados para interagir com os corpos-cobaia (ex.: marido, colegas de trabalho, etc), o estresse (energia transitória) dividiu-se por igual até que o sistema alcançasse o equilíbrio estressodinâmico. A segunda Lei da Estressodinâmica postula que a energia total de um sistema fechado não se altera, e que dois corpos com desigual coeficiente de estresse rapidamente dão lugar a um estado de estresse uniforme à medida que a energia (estresse) flui do corpo com maior Sc para o corpo de menor Sc. Ao atingir esse estado, o sistema está em equilíbrio, como exemplificado na figura 1.

Figura 1: Representação esquemática do fluxo de estresse
Na tentativa de estabelecer uma equação matemática para o cálculo do coeficiente de estresse (Sc), foram relacionadas algumas variáveis que provavelmente têm papel fundamental no valor de Sc.
São elas:
  • Ct - Exemplifica o número de "chapéuzinhos" levados num dia de futebol (mais precisa para homens);
  • Dt - Número de dias de trabalho por semana;
  • N - Número de mulheres na casa;
  • F - Número de filhos;
  • A - Número de amantes;
  • Tres - Tempo restante para entrega de teses, projetos, trabalhos, monografias, deadlines, etc.;
  • Dr - Coeficiente de drogas;
  • m - Nº de dias restantes para a menstruação (apenas para mulheres).
Partindo da ideia de que o número de chapéuzinhos tomados num futebol aumenta o esrtresse de um homem(Ct), assim como o número de dias de trabalho por semana (Dt), as mulheres gritando e chingando em casa (N), as crianças choramingando e esperneando(F), e o número de amores que possui o indivíduos em estudo (A), que já mostra que quanto maior o número de rolos, mais dor de cabeça e maior o Sc. O Tres é quase essencial para a realização de estresse, sendo inversamente proporcional a Sc (já que, quanto maior o tempo disponível para a entrega de um trabalho, menor o estresse). O coeficiente de drogas (Dr) está clinicamente comprovado ser diretamente proporcional a Sc. E quanto ao número de dias restantes para a menstruação, a variável mais poderosa, relaciona a questão hormonal feminina à tendência ao aumento de Sc, já que é cientificamente comprovado o poder do Estrógeno no comportamento da mulher. Como a variável "m" não se aplica aos indivíduos do sexo masculino, será geralmente igual a zero. Eu disse geralmente, pois como minha prima Naira genialmente me recordou, para os casos de TMP extrema na qual a mulher ansiosamente desconta toda a sua raiva no homem mais próximo (através de atitudes de baixo calão), este valor deve ser considerado para o cálculo de Sc. Mas bem, essa variável "m" é que mostra que a mulher possui uma tendência natural à elevaçao de Sc.
Relacionando logicamente estas variáveis, foi possível estabelecer um termo matemático:Portanto, o estresse é uma forma de energia em trânsito e pode ser transmitida por contato entre dois corpos com diferentes valores de coeficiente de estresse. Tal qual a segunda lei, se queres reduzir seu coeficiente, basta o contato com alguém em menor patamar que o seu, e o fluxo de estresse ocorrerá espontâneamente!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Valsa eterna

Izabella Pena


Vigésima nota da canção onde se inicia aquela dança que a fazia rodopiar com guia e par pelo salão. Sabia dançar como um pássaro sabe voar. E, como se fosse um pássaro, voava... Sumia do mundo ao dançar assim, viajando para seu próprio universo, em seu próprio salão. Esquecia-se dos olhares curiosos que invejavam aqueles pés e pernas que desenhavam admiráveis passos. Valsava com o seu amado e desconhecido par. Dançavam com uma proximidade tamanha, como se já se conhecessem há anos dourados, anos amados e deliciados.

A música que a banda tocava estava tão em sintonia com os pés do casal que era como se os amasse. Como se amasse os olhares que, em ressonância com os ouvidos atentos à música, direcionavam a multidão para a dança desenvolvida.
Sim, a música os amava. Amava aquele casal iluminado pelas luzes do salão. E a música não queria que eles parassem. Não queria que o show acabasse.
Passadas algumas muitas horas, misteriosamente os artistas não conseguiam parar de tocar as músicas que faziam valsar o casal absorto em meio às notas. Assim caminhava a noite, e assim pareciam eternamente dançar o místico casal.
Quando se foi notar, era um novo dia. O show teve de ser interrompido, e o casal impedido de continuar a dança. A multidão, abalada, desceu as escadas. Os tocadores guardaram tristemente os instrumentos em suas caixas. A música, então, se dissipou em meio à luz que entrava das janelas. E o homem que tanto esteve em sua intimidade, juntamente com a luz e a música, se perdeu em meio ao fim de tudo.

Tal como veio o dia, chegou a noite. Um novo baile se iniciaria em instantes, e estavam todos ansiosos para admirar novamente a bela dama a valsar. Logo ela entrou no salão, com uma beleza irradiada por seu corpo, rosto, cabelos e pelo seu doce olhar. Vestia um delicado vestido e os mesmos sapatinhos do outro baile. Olhou à sua volta e estavam todos lá. Exceto o desconhecido amado par da noite anterior. Onde estaria aquele que, tão elegantemente, a conduziu pelo salão por toda a noite? Onde estaria aquele que, por ela e com ela, foi amado pela música e pelos olhares?

Não, não estava lá aquele homem que a amou por toda a noite em sua dança. Engraçado como se sentiu vazia ao perceber sua ausência. A ausência de um homem que sequer conhecia que sequer tinha o conhecimento de seu nome. Jamais sentira isso por alguém, essa dor estranha, desafinada, desadornada, simplória...

Mas, como era de se esperar, um novo par surgiu em meio à multidão e à ela estendeu a mão. Um exímio cavalheiro. Novamente se iniciou a música, mistura de violão, violino, violoncelo... e com um tão belo casal a bailar. Tal como antes, dançou lindamente a moça. O novo desconhecido sabia, tal qual o da noite anterior, como guiar a dama e rodopiar pelo salão. Novamente ela fechava os olhos e se deixava levar pelos acordes e pelos passos de seu novo par.

Ela o amou tal como amou o par da noite anterior. O sincronismo dos dois novamente direcionou os olhares curiosos da multidão aos seus pés, passos e rodopios. “Venha, pode chegar! Veja como dança bem aquela moça!”. E como dança bem aquela moça!

Em seus olhos fechados, calados, guiados, se via um filme de sua vida. A dança era como uma volta ao passado e uma libertação ao futuro. A volta ao passado se dava à medida que, ao desenvolver a dança, lembrava-se de coisas gostosas como bailar. A liberdade estava na leveza dos passos, que a fazia voar pelo salão.

Então, ela olhou nos olhos do seu par, mas não conseguiu os ver. Estavam fechados, meditantes. Entre a madrugada valsando num salão longe dali. Entendendo o recado, fechou seus próprios e voltou a dançar longe dali com ele. Como se já fosse o tempo em que sonhava em nunca mais parar de dançar. Assim caminhou a noite e novamente chegou o dia.

A luz, tal como no dia anterior, fez sumir tudo e todos.

E ela novamente ficou só, num dia cinza e sem som. Como ocorrera em outrora, não sabia sequer o nome do par que tanto amou na noite que acabara em instantes. Sequer os olhos conseguiram ser admirados. Tudo o que queria era saber o nome daquele insigne dançarino.

Foi então que, de relance, viu um vulto a sair do salão. Ela não conseguiu distinguir muito bem de quem era. Mas alguma coisa em seu interior a dizia que era ele.

Correu em sua direção e o alcançou. Era ele. Era sim o seu amor daquela noite! O seu amante que a amou na dança e nos passos.

Perguntou-lhe, afoita, seu nome. Não queria cometer o erro daquela outra noite, a qual passou sem que perguntasse o nome do par.

“Qual é o nome de ti, amor de minha dança? Quero saber quem é o homem que tanto amaram meus passos”.

Ele então respondeu que era a música.

E assim, foi embora. Sumiu em meio à luz do dia, sem mais explicações.

A moça, decepcionada com tal resposta e se sentindo ignorada, voltou ao salão onde estavam os tocadores. Eles estavam a terminar um café, e estavam prestes a começar a embalar os instrumentos e equipamentos de som. A bela mulher, então, teve uma idéia.

Pediu aos homens que tocassem uma música qualquer. Talvez uma das que foram tocadas na noite do baile.

E, à vigésima nota, ela percebeu o que as palavras do seu amado par desconhecido pronunciaram. Não era a eles que amava a jovem. Era a musica o seu grande amor. Era ela que ditava os passos, e se materializava em seus pares. Seja qual for o par que com ela dance, o amará. Seja qual for o par, o passo e o bailar, ela amará a música que incondicionalmente a levará pelo salão.

E assim, a moça amou por toda a eternidade, dia após dia, baile após baile, par após par.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Trecho do conto "Cartas" (que não terminei)

Izabella Pena
Sei que tenho coisas a fazer. Mas a escrita me prende. Não sei mais sobre o que escrever, não quero ler o que eu escrever... Só sei que escrever é o que desejo, e é o que vou fazer agora.
Já conheço os passos que estou a seguir. Sei que não vão dar em nada. Conheço as pedras do caminho, conheço seus segredos, seus almejos sobre a vida. Mas o que eu posso contra o que sinto? O que posso fazer se o seu encanto sempre está a me enfeitiçar? O que fazer se no álbum de retratos estão as mesmas fotos, as mesmas paisagens, os mesmos rostos, o seu rosto?
Por que ainda volto a te escrever, a pensar em você, a colecionar as letras, a colecionar as músicas, a ouvi-las, a lembrar de ti, cantá-las e lembrar novamente. Não adianta, eu continuo colecionando. E maltratando meu coração.
Por que eu não conto tudo? Por que não conto o motivo de minha ausência, e de minha intensa paixão? Por que eu continuo a admirar sua letra nas cartas, admirar as suas palavras, seus sonetos, suas poesias? Eu não tenho justificativas, não existem justificativas contra o encanto dessa paixão que nego tanto, mas volta a me desejar, e volto a desejar.
Lá vou eu de novo, buscar o mesmo desconsolo, os dias tristes, os sofrimentos, a solidão desse quarto, dessa noite, da minha cama vazia, da minha ausência. Lá vou eu de novo, tentar escrever-te, tentar expressar o que estou sentindo, aqui sozinha, como uma tola.
Ainda volto a lhe escrever...preciso dizer que isso é injusto, é pecado. Com as lembranças do passado, com o peito marcado, e você sabe a razão.
Preciso falar-lhe, preciso abraçar-lhe, beijar-lhe! Não posso. Apenas continuarei a admirar seu rosto no retrato, seu retrato em preto e branco.

domingo, 23 de março de 2008

Insensível

Izabella Pena
Se sabes que estou aflita
pela resposta embutida
naquele silêncio que grita
por detrás da porta, à sala vazia

com o vento que sopra,
balança aquela cortina
e levanta, levemente
mechas de cabelo e só..

injetai, pois, as ampolas,
trocai as fechaduras e chaves
invertei as ampulhetas do tempo,
dançai a música do vento
causai a inlucidez
movei a peça do xadrez
sofrei uma última vez...

e tentai
sentir da próxima vez...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O chá

Izabella Pena
Conheci uma velhinha esses dias. Sabe aquelas velhinhas de cabelos branquinhos, bochechas róseas e cheiro de histórias pra contar? Desse estilo. E ela me contou uma história da vida dela que me impressionou.
De uma grande inteligência e apurado conhecimento homeopático, a velhinha sabia fazer diversos tipos de medicamentos e garantia que conseguia curar muita coisa! Certa vez, ela saiu a procura das ervas mdicinais e encontrou algumas de cheiro diferente em abundância numa serra mineira. Levou-as, interessada por descobrir que efeito especial elas causariam. "Algo especial devia ser" pensava, por possuírem tal cheiro singular seus achados. Misturou-as com água e aqueceu para fazer um chá. Retirou do fogo e serviu em xícaras. Sem receio, bebeu ainda quente. Lembro-me de suas palavras "bebi quente pois estava com a garganta dolorida, e chá quente ajuda a aliviar a dor. Minha filha, é uma delícia esse chá!". E nesse instante, de súbito a reação ocorreu e a velhinha se transformou por completo! Começou a ver a vida com outros olhos, as flores estavam mais floridas, as cores estavam mais coloridas, e os cheiros estavam mais fortes. Foi aí que ela desvendou todos os segredos do mundo.
Sem falar nada com ninguém, pegou uma grande cesta e voltou à serra de onde colheu as ervas e colheu mais um punhado. Levou-as, plantou-as nos fundos de sua casinha,e criou mais uma grande diversidade de combinações dessas ervas com outros componentes. Moeu-as com grãos de café e fez um café delicioso no dia seguinte para os filhos e netos, que experimentaram e tiveram a mesma nova percepção do mundo que teve a senhora.
Ela então, entendeu sua missão na Terra. Comprou o terreno baldio do lado de sua casa e plantou mais das ervas. Começou a colher e fazer chá, moer com o café, com o milho... e montou um pequeno estabelecimento onde servia diversas combinações de cafés, ervas, chocolates, chás, bolos, doces etc. Todos os que bebiam ou comiam do que a velhinha servia, sentiam a mesma metamorfose que ela.
A velha senhora, um dia, ficou assustada. Teria criado uma nova droga? Será que as pessoas viciariam-se nela? Será que o poder alucinógeno desta geraria problemas psíquicos e de saúde nos usuários? Ela acalmou-se então, pois percebeu que já estava bebendo do chá de suas ervas há muitos e muitos anos e nada havia acontecido com ela. "Só estava mais, mais, mais..."! Nem haviam palavras que descrevessem o que sentia!
De toda forma, as ervas não podiam simplesmente se chamarem "ervas", precisava dar um nome à elas. Escolheu o nome "ilusão". Ninguém sabia o que era ilusão antes da velha senhora. E aquela dose homeopática diária de ilusão que a senhora distribuía e vendia a quem quisesse trazia conforto a muitas pessoas.
Um dia, um cientista famoso, curioso por estudar os efeitos da tal ilusão após ouvir milhões de comentários sobre estes, resolveu ir à casa daquela dona pra experimentar, que o acolheu gentilmente. Ele experimentou e se sentiu tão alegre e tão de bem consigo, que parecia flutuar sobre tudo. Realmente sentiu-se imerso numa mistura de sensações maravilhosas, exatamente como lhe tinham descrito as pessoas que experimentaram. Assim, chamou essas sensações de "Felicidade". O cientista escreveu muitos livros sobre a dose de ilusão e sobre a felicidade, e este conceito se espalhou por todas as partes do planeta.
Muitas pessoas ficaram sabendo da velhinha por meio da grande fama da felicidade no mundo inteiro. Então, ela aumentou a produção de ilusão, e saiu distribuindo para todos em todo o mundo, enchendo o mundo de ilusão e, consequentemente, de felicidade. Seria então a tal da felicidade uma ilusão ou a tal da ilusão uma felicidade? Difícil dizer.
Ela então, criou o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, a fábula, a fantasia, a ficção, o amor, a paz, a riqueza... e tantas outras coisas que nem sei dizer quantas.
Só sei que depois de uma tarde muito prazerosa de boas conversas com a saudosa velhinha, esta me ofereceu chá de ilusão. Experimentei. E entendi tudo! Desde então, tomo uma dose de ilusão todos os dias.





Moral da história: mesmo que a felicidade venha a ser uma ilusão, queremos essa ilusão todos os dias, e ela nos conforta. Ter a ilusão de que seremos felizes nos faz querer mais e mais nossos objetivos alcançar, e de tanto tentar, conseguimos! Acho ser utópico alcançar a felicidade em sua plenitude, mas é de pequenas conquistas e pequenos avanços, que construimos o que seria uma parte dela, mesmo que pequena, momentânea e efêmera. Por isso, tomamos uma dose de ilusão todos os dias, e essa busca incessante pela felicidade durará dia após dia, dose após dose.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Uakti


Uma flauta soava no começo. Se iniciavam seus passos.
Fazia seu som, cada passo de uma vez, em seu rítimo especial, singular. Sua respiração ditava o tom da música que tocava a multidão.

Enquanto isso, surgia um outro som distinto, gerado pelo bater em alguns canos enfileirados gerando algo similar ao som de um baixo, porém diferente...diferente. Logo depois entrava o som doce do xilofone... Todos em perfeita sintonia, cada um do seu jeito, cada um na sua harmonia. E eles alternavam entre si, tocando todos os instrumentos que estavam no palco. Instrumentos
incomuns, originais....de madeira, cabaças, vidro, metal, pedra, bambu, tubos de pvc, borracha...O que mais me surpreendeu foi o que eles nomeiam "Aqualung", no qual a água caía devagar em um tubo, e produzia notas dentro da escala musical.

Um tanto quanto inexplicável, talvez quem estivesse lá compreenda o que senti... A incomparável atmosfera da mensagem que circulava entre nós. Uma mensagem diferente, quase como uma metáfora. Uma incógnita, direi. Uma incógnita que me tocou e estou tentando entender até agora. Impressionante como o diferente nos atrai, impressionante como o diverso, o desigual e o
inexato são tão interessantes. Os sons estão aí para serem misturados, para que possamos experimentá-los! E essa mistura orgânica, inusitada se situa além do erudito e do popular e, ao mesmo tempo, é tão profunda quanto o silêncio.

A mistura musical do doce com o
salgado é realmente deliciosa!

E o sabor é como vi num blog esses dias:
"tranquilamente acaricia nossos pés
retorna ao seio do mar profundo
à sétima molha-nos até aos joelhos"


Ah.... e um "PS" básico:
"
Uakti era um ser mitológico que vivia às margens do Rio Negro. Seu corpo era repleto de furos que ao serem atravessados pelo vento emitiam sons que encantavam as mulheres da tribo. Os homens perseguiram Uakti e o mataram. No local onde seus restos foram enterrados nasceram palmeiras que os índios usaram para fazer flautas de som encantador como os produzidos pelo corpo de Uakti."

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Dramalhão

Izabella Pena
Lembra-se daquele sorriso que você me deu?

De presente...
Virou um roteiro e uma tentação
Meu lápis, sem ponta, tenta escrever no papel
O segredo de sempre do dramalhão.

O que você faz?
Quer saber como foi meu dia de hoje?
Aproximai os que não temem a solidão
Contemplai aqueles que não esquecem uma paixão

E o dramático ator toma suas drágeas
suas dores...
e transforma suas lágrimas
em seus muitos amores
e seus muitos em apenas um

Um que gera a trama
enobrece o drama
que meu lápis, sem ponta, insiste em tentar escrever
Insano, efusivo, cromático...

A trama então ganha cena
Ganha personagens, cenário, palco, platéia
E mal sabe o respeitável público
que sim, verdadeiras são!
As lágrimas no dramalhão...

domingo, 18 de novembro de 2007

Dicionário de termos populares

Izabella Pena
Hoje passei um bom tempo conversando com minha queridíssima avó Dirce que, ao longo de seus muitos casos e histórias, inseria raros termos populares. Eu, um tanto curiosa, e querendo conhecer mais sobre a linguagem local de um município no interior de Minas Gerais, pedi a ela que discorresse sobre algumas palavras por ela usadas e que são comuns na região onde vive. Anotei-os, bem como seus significados e, depois de umas boas risadas, resolvi compartilhar esse pouquinho de cultura com você que está lendo esse texto agora.
Esses são alguns termos interessantes usados pelas pessoas da roça mineira e que me chamaram a atenção. Confesso que alguns eu inclusive uso! E adoro usar. Usando, passo para o interlocutor um pouquinho dos costumes de minha família e do povo da região. E que legal perceber que a nossa cultura brasileira é ainda mais interessante e diversificada do que se imagina! Os neologismos, as palavras adaptadas, os significados, as origens variadas...

Gostaria de reforçar que se por acaso quiser procurar no dicionário, creio que muitas palavras não serão encontradas. Porém não são neologismos de minha própria avó, uma vez que outros moradores do local também compartilham deste conhecimento.


Pistolo: Alguém "jacú", muito bobo;

Puaia: Pessoa "burricida", enjoada, irritante. Segundo minha avó, a origem do termo "puaia" está relacionada a uma fruta da região que recebe esse nome e tem gosto extremamente amargo;

Sambanga: Um pistolo, pessoa boba.

Íngua: Puaia, gente chata, irritante;

Pustema: Pustema, segundo as pessoas da roça, é aquele machucado que dói, com sensação de latejamento. Associam, pois, às pessoas que irritam e pisam nos pontos fracos dos outros;

Purgante: Pessoa amarga, que gosta de provocar os outros;

Sungar: levantar (Ex.: Sungar as calças);

Pisteba: Pessoa sambanga, boba;

Patureba: Pessoa sambanga, tola demais e mais lerda que o normal;

Ativa: Aquele que é sadio, espevitado;

Curisco: Aquele que é rápido e esperto;

Velhaco (pronuncia-se 'veiaco'): pessoa ativa e curisca que adora tirar proveito das situações;

Atentado: capeta, bagunceiro;

Perrengue: Pessoa que está baqueada, cansada, lesada;

Capioa: Pessoa que recarrega de hora em hora a sua jacuzice, sua tolice;

Sapecar: dar uma despistada, uma "carochadinha", fazer coisas incompletas. (Ex: "fulano sapecou aquele relatório");

Barrão: Pessoa gorda;

Barafunda: Mulher fácil;

Roncolho: Homem estéril;

Bisca: Pessoa falsa, má;

Cantar o carrinho: Falar mal dos outros;

Anca: Quadril;

Ronceiro: Vagaroso, lerdo;

Enchamprada: Adjetivo exclusivo para caracterizar bundas retas, sem curvas;

Encurrunhado: Adjetivo específico à culinária fracassada quando, por exemplo, um bolo não cresce e fica com aspecto murcho, diz-se que este esta "encurrunhado".

Muncadinho: Diminutivo de pouco. Possui vários sinônimos: "tiquinho", "cadinho", "bocadinho", entre outros;

Bicho do mato: Pessoa tímida;

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Obsoleta canção

Ele olhava pra ela e sorria
ela então, retribuía
Mas a melhor coisa do mundo é o suor...
E a chuva que pegamos naquele dia!

Naquele dia, lembra?
Agora? Tem que ser agora?
Quero amarrar minha rede...
Então....beijos, tchau!

Quero tomar aquele vinho
Ouvindo aquele som esquipático
a entrar na ingenuidade dos meus ouvidos...
Como pude rir do seu riso sarcástico?

Que objetivava a objetividade do objeto
obsoleto o obrigado!
Parcimoniosa a hipótese que escolho
Entorpecer: cheiro, gosto, olho no olho...

E o obsoleto obsoletou o obrigado...

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Canção sem fim

Izabella Pena
Nada superava a beleza fria daquela garota, que deixava de propósito seus cabelos pelo vento serem levados e espalhados, causando aquele belo contraste de um dia sem graça com a morenice de suas mechas. E ela sabia que causava esse efeito, sabia. Sabia da beleza que possuía, e se sentia poderosa, fatal.
Abriu a janela de madeira escura do seu quarto e admirou a falta de graça de mais um dia como todos os outros. E ela se sentia a única aventura do dia, a única luz, a única sensação. Olhava para as pessoas nas ruas seguindo a monotonia diária, dos passos, dos braços, dos olhares. Como sempre, como será também amanhã.
Mas ela não. Ela não andava da mesma forma todos os dias. Suas pernas, desenhadas a mão, andavam dançando como se uma música levasse o vento que fazia seus cabelos bailarem com ela. E ela sabia...sabia que era a única graça do dia, a única graça do vento que tanto a adorava.
Então, ela se olhou no espelho. E a mulher que era se revelava mais uma vez, como tantas! Se olhava, olhava suas mãos, que eram grandes porém delicadas. Com seus dedos longos e finos, dedos de pianista. Ela então, sentia vontade de tocar. Se dirigia ao piano na sala, um belo piano preto, que de tão polido podia-se ver sua imagem refletida. Ela então, arrumava os cabelos em sua vaidade plena, e ajeitava o banquinho com delicadeza e com a sensualidade que só ela tinha. Vagarosamente, assentava e retirava o feltro que cobria as teclas meio amareladas do tempo.
Olhou-as antes de iniciar a melodia, e com movimentos lânguidos de seus lindos dedos, distorcia a realidade em meio a notas musicais que a circulavam e faziam com que ela fosse ainda mais espetacular do que era.
A música fazia com que sua monotonia não existisse. Ela não lia as partituras, tocava o que lhe vinha a cabeça, batia levemente os dedos onde tivesse vontade de bater... E a música era diferente, com uma sonoridade única que só ela sabia conduzir. Então imaginava um saxofone ao seu lado, acompanhando seus dedos, seu corpo que dançava delicadamente de um lado a outro e seus olhos que fechavam vagarosamente e abriam com um movimento da cabeça para trás. A música soava lenta e prazerosa. De repente uma multidão se aglomerava, e todos queriam ouvir o som...
Então, ela deixava o saxofone conduzir a música sem escrita, inventada no momento... Se levantou e caminhou, sensualmente levada pelo sopro divino daquele que conduzia o espetáculo. Todos os olhares se direcionaram aquele caminhar, e ela percebera que era o centro das atenções agora. Sabia, queria e gostava. Que mulher não gosta de se sentir sensual, linda e desejada? Percebendo isso, continuava seu desfile. E a sensualidade de seus movimentos se misturava com a do sopro do saxofone, que ditava uma dança. Que ela executava com alguns passos leves e lentos, em busca de alguém daquela grande plateia para acompanhá-los. E escolheu um felizardo para ter a digníssima honra de com ela dançar.
Dançaram pois, os dois, por tempos ao som daquele instrumento que ditava os passos e, em meio aos rodopios e gestos a dois, ela viu o relógio pendurado na sala. Percebeu que dançavam há duas horas e que era hora de parar. Nesse instante, num piscar de olhos esvaia-se o saxofonista, com um gesto de cumprimentos, o dançarino e a plateia.
Mesmo sem o público, ela desfilava. Desfilava para ela mesma, se admirava assim. Desfilava em direção ao espelho, seu amigo espelho, que lhe revelava sua imagem, seu exterior. E levava suas magníficas mãos aos cabelos, penteando-os com seus dedos. Passava um batom e só. Não precisava de maquiagem que realçasse sua beleza. Ela por si já se realçava.
Toda essa preparação era para que seu dia não fosse insosso e monótono como o das pessoas que havia visto na janela duas horas atrás. Com os mesmos passos, os mesmos gestos, os mesmos olhares... Ela não. Tinha a mesma sensualidade, mas que lhe modelava novos passos, novas melodias, novas audácias, novas disputas, novos caminhos...
E naquele dia estava decidida a traçar um novo caminho. O saxofonista então voltava a sua mente, e aquela música tão sensual invadia-lhe novamente os ouvidos, fazendo-a fechar os olhos. Na inspiração da musica, de sua beleza, dos seus cabelos, mãos, dedos, olhos...
Então, se sentiu um pouco sozinha. Queria um abraço gostoso, um beijo sedutor. Talvez mais sedução do que continha seu corpo não existiria, mas queria a sedução de um homem agora. Saiu então. Sabia que conseguiria a atenção do homem que quisesse, com a exuberância de sua beleza. Mas queria a companhia daquela música que a fazia voar. O saxofonista foi atrás pois.
Agora o vestido de tecido leve traçava com o auxílio do vento as curvas daquele corpo que a todos os homens era objeto de desejo. A cada passo, o vento mais modelava, e fazia voar seus cabelos. Seus olhos fixavam o caminho, buscando um olhar... Olhares eram tantos os que fitavam-na e desejavam-na. Ela podia escolher, sabia disso. Mas qual escolher? Qual o olhar que estaria em sintonia com o seu? Então parou, e vários homens seduzidos, hipnotizados por tanta beleza se aproximavam. Com uma das mãos na cintura, e uma pose de manequim, olhou a sua frente, e não achou o que procurava. Então fechou os olhos novamente, e tentou pois descobrir qual a origem do seu desejo, a origem da sua vontade.
Ouviu então o saxofonista, alguns metros atrás de onde estava. Ele conduzia a festa, conduzia seus passos, o vento que grudava em seu corpo, os cabelos que bailavam. Desejou-o pois.
Fatal, sedutora, em sua direção foi. Fixou seu olhar no rosto dele. Que tinha os olhos fechados levados ao prazer de tocar. Fechados e dançando à melodia que criava, que como aquela garota, era variada, original, de várias notas e vários tons. Ela se aproximava. Seus passos íam ficando mais leves. Até que chegou a sua frente. E ele continuava em seu prazer incomensurável por tocar aquele sax.
Ela então, viu que com toda a sua majestosidade e sensualidade ainda não era párea para a música. E que aquele saxofonista estava alcançando o prazer máximo físico e moral com aquele ato. Nem a beleza inenarrável daquela mulher conseguiu despertar de aquele saxofonista.
Então, ergueu-se a garota.
Foi a sua casa novamente, seguida do saxofonista. Sob aquele vento de um belíssimo outono, que levava as folhas para sua casa, e espalhavam-nas sobre o chão. Seus cabelos e seu corpo continuavam a voar com as folhas, e ela percebeu como saciar o seu desejo de beijos e abraços, da forma que queria, com quem queria. Assentou-se com lubricidade novamente em frente ao piano, e dessa vez acompanhou o saxofone. Ele ditava as regras e a melodia continuava lindamente, e por incrível que parecesse, maravilhosamente melhor.
Aquela mulher ia sentindo, sentindo, tocando, tocando, batendo os dedos com calma e força, vagarosamente e rapidamente. O prazer invadia-lhe e tomava-lhe. Fechava os olhos. Soltava algumas palavras. Sorria. E seu sorriso era tão belo quanto a música que tocavam juntos aqueles dois. Amantes, amantes da música, do prazer... e iam se amando através da sintonia de seus instrumentos e de suas melodias.
E assim, nunca mais pararam de tocar os dois...

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Campos amarelos

Izabella Pena
Tristes campos amarelos
sem flores, frutos...
sem a beleza do seu sorriso,
o meu se torna como os tristes campos:
amarelos...

Amarelos sem graça, insossos,
sem a vivacidade do sorriso de tí menina,
sorriso moleque, sedutor.
Ficarei feliz quando me sorrir...
e nos campos amarelos, plantarei uma flor

domingo, 26 de agosto de 2007

O saber científico não-diplomado, a mielina e o Óleo de Lorenzo

Izabella Pena

“Aquilo que se faz por amor, parece ir sempre além dos limites do bem e do mal.”

Nietzsche

O filme “O Óleo de Lorenzo é um drama extremamente tocante que retrata uma história real, a da luta do menino Lorenzo Odone contra uma rara doença genética ligada ao sexo que afeta indivíduos do sexo masculino, a ALD (Adrenoleucodistrofia). Quando diagnosticada a incurável doença, em 1984, os pais do garoto: Michaela (Susan Sarandon) e Augusto Odone (Nick Nolte) não aceitaram a não-curabilidade desta e se dispuseram a enfrentar de corpo e alma uma luta, a qual sabiam que poderia se estender por toda a vida.

A ALD se caracteriza pela deficiência de uma enzima (ligase acil CoA gordurosa) envolvida no metabolismo de lípides, que causa um acúmulo excessivo de ácidos graxos de cadeias muito longas (24 ou 26 átomos de carbono) em tecidos, principalmente no cérebro. E esse acúmulo leva a destruição da bainha de mielina, o que impediria pois a transmissão de impulsos elétricos, e por isso a degeneração rápida das células cerebrais, levando a morte por volta de dois anos.

Os médicos da época (e os de hoje também) desconhecem o mecanismo pelo qual a mielina é destruída, e os pais viam seu filho sendo submetido a uma série de tiros no escuro para a descoberta de um tratamento estável. Sendo assim, eles mesmos resolveram estudar sobre a doença, envolvendo uma série de áreas do conhecimento biológico (bioquímica, neurologia, enzimologia...) para que pudessem entender mais sobre a doença e salvar a vida de Lorenzo.

Com isso, depois de passar por uma série de tratamentos frustrados, Augusto e Michaela chegaram, através de seus estudos, à conclusão de que administrando ácido oléico na forma de triglicerídeos, diminuiriam a biossíntese dos ácidos graxos de cadeia longa. Posteriormente, ligaram os fatos e descobriram que um outro óleo poderia diminuir essa síntese, o ácido erúcico. Conseguiram o êxito de reduzir os índices dos Ácidos Graxos de cadeias longas do sangue de Lorenzo, e o prolongamento de sua vida. O filme foi gravado em 1992, e até hoje, Lorenzo está vivo, possui 28 anos e se comunica por meio de um piscar de olhos (que pode significar “sim” e “não”).

Um fato que o filme deixa muito claro é o da arrogância de muitos do meio científico. Mostra o preconceito entre o saber “científico” e o saber não reconhecido. Augusto e Michaela não eram cientistas formados, mas eram cientistas em prática. Pesquisaram por anos e anos, e souberam ouvir e avaliar as opiniões de outrem, e na minha opinião, isso sim é ser cientista de verdade. No filme, eles se tornaram autodidatas, e se tornaram a “concorrência” dos doutores formados. Por esses motivos, as autoridades cientificistas resistiram por um tempo para aceitar suas brilhantes idéias e os avanços obtidos com Lorenzo e de outros meninos tratados com a dieta baseada no óleo de Lorenzo.

O filme mostra também um pensamento não exclusivo dos cientistas e médicos, e sim dos outros pais que possuem filhos com ALD ao gritarem frases do tipo: “Quem é esse Augusto Odone que quer saber mais que os médicos?”. E essa negação do saber não-diplomado ocasionou numa extensão da dor de muitas crianças.

A crítica se faz pela maneira de agir dos cientistas e médicos, à arrogância gerada por um convencimento de que um diploma faz de um homem superior a qualquer um, e o que desvincula esse diploma do ser humano, se tornando este, dotado de um saber cientificista que busca o saber seja por fama, dinheiro, e etc., afastando o ser do amor pela ciência. Quando Lorenzo é cuidado pelos seus pais, esse amor por ele alimenta uma paixão pelo conhecimento. Não existe uma negação do saber científico, ainda por que posteriormente, na vida real, o verdadeiro Augusto Odone foi aceito e incorporado ao mundo científico, e hoje lidera um grupo de pesquisa que faz parte do “The myelin project” (http://www.myelin.org/) que busca respostas para o tratamento de doenças relacionadas a essa e na regeneração da mielina.

Os Odone ainda têm esperança de que Lorenzo se recupere. E eu também tenho.



domingo, 15 de julho de 2007

A Pedra

Izabella Agostinho Pena

Pelas ruas vagava aquele pobre menino. De cabeça baixa, olhos fixos no chão. Se movia em direção à uma suave música que ouvia, longe e baixa. Os carros passavam ao seu lado, e ele sequer notava, nem mesmo o seu som. Em seus ouvidos, somente a bela música. Assim, chegou a uma praça, onde havia um tocador de flauta, ganhando uns trocados. Enfiou a mão no bolso e nada. Nem um tostão para pagar aquele ser que cantava sua alegria.

E num piscar de olhos o músico se multiplicou numa orquestra, e o pobre menino viu a praça se transformar num grande baile. Assentou-se num banco e pôs-se a contemplar a beleza dos vestidos, os passos ensaiados... Tudo e todos em perfeita sintonia.

De repente, alguém colocou a mão em seu ombro. O menino levou um susto tão grande que se tornou furioso. Era seu pai reclamando sua ausência no trabalho, já que não estava no sinal pedindo esmolas como seus irmãos. O menino disse que já iria voltar.

Quando virou-se novamente para contemplar o belíssimo baile, já não mais havia nada. Nenhum tocador, nenhum vestido, nenhum passo ensaiado. Nem mesmo o flautista com seu humilde pote de moedas. A tristeza lhe consumia e corroía seu interior. E tudo isso porque seu pai lhe encostara as mãos nos ombros, tudo por culpa dele. Olhou para seus irmãos. Tristes, pobres, pedindo esmolas...E chorou.

Fugiu. E não mais trabalhou naquele dia.

Sentiu fome, muita fome. E voltou para casa. Chegando lá, foi espancado cruelmente por seu pai. Percebeu que só encostavam nele para destruir seus sonhos, suas fantasias. Sentiu que o contato era sempre prejudicial e decidiu, naquele dia, que ninguém mais nele encostaria.

Sentiu sede. Ao pedir água à sua mãe, que por sinal também estava furiosa com ele, esta lhe deu um tapa na boca, que não matou sua sede. Mas ele não sentia mais dor. Não mais tinha sentimentos, era sozinho agora. Gostava de ser só... É isso, era feliz sozinho.

O tapa de sua mãe silenciou seu já ferido coração. E não mais falou.

Dormiu sentado num canto da parede de tijolos inacabada de sua pequena “moradia”. Dormiu pensando no medo de viver. E acordou pensando e falando com os olhos. Não respondeu a nenhuma pergunta de ninguém com palavras.

Tomou um café amargo e foi para a escola, como todos os dias, porém hoje estava diferente. Não era mais o mesmo.

Sentou na última e mais isolada carteira. Notando o diferente comportamento de seu colega de turma, a menina Clara, ou melhor: Clarinha, assentou-se ao seu lado e tentou conversar, mas fracassou. Ele não falava absolutamente nada. Olhava fixamente para sua caneta, em cima da mesa. Parecia estar em outro mundo ou viajando por várias dimensões. Nem se deu conta da presença da doce garotinha. E furiosa, ela se posicionou ereta na carteira e olhou fixamente para a professora que começou a aula.

E assim foi durante toda a manhã.

Chegando em casa, faminto, seus pais o obrigaram a trabalhar. Foi para o semáforo indicado com algumas balas. Mas não conseguia falar, parecia bloqueado. Quando os carros paravam, ele abaixava a cabeça e mostrava os produtos, sem pronunciar uma só palavra, apenas gesticulando e mostrando as balas com os dedos. Ao menos tentou.

Chegou em seu barracão tarde da noite, sem uma moedinha sequer nos bolsos. Neles, havia apenas o silêncio e a escuridão.

O dia amanhecia, e ele via os raios solares penetrantes em sua residência. Mas era muita luz, não conseguia mais olhar para locais iluminados. Abaixava a cabeça e colocava a mão sobre os olhos para seguir o percurso a pé até sua escola. Lá estava Clarinha, assentada no mesmo lugar.
Fazia mil perguntas, mas nenhuma resposta obtia do menino. Ele, sempre calado, fingindo não prestar atenção em nada. Pedia-lhe que olhasse para ela, que lhe desse atenção, pronunciasse um "a" sequer! Mas ele não conseguia mais. Era muito duro e difícil olhar para alguém.

No intervalo do lanche, foi ao banheiro e viu em seus braços as marcas da violência de seu pai algumas noites atrás. Os braços ainda doíam, e estavam manchados de ódio e tristeza. Os lábios ainda continham alguns hematomas. Era o que tinha de seus pais em seu corpo, em sua mente. Era esse o amor fraterno que conhecia, ou melhor: que jamais conheceu.

Foi para o pátio e ficou assentado num canto, isolado e amuado, criando uma fortaleza a sua volta. Olhando sempre para baixo. Foi aí que viu dois lindos pezinhos, delicados e limpinhos. Era Clarinha, ele sabia que era ela. Mas não olhou para a menina, não conseguia, não tinha coragem. E como sempre, nada falou.

Naquele dia Clara percebeu que estava completamente intrigada para descobrir que mistério rondava a vida daquele menino. Estava curiosa para saber porque ele tinha aquele jeito diferente de viver. Queria pois descobrir. Por isso, fez mil perguntas. Ele, sempre estático, olhando as pedras no chão. E viu que entre as pedras, havia uma diferente, redonda, lisa, grande.

Aquela pedra, em contraste com as outras tantas disformes e assimétricas, era diferente. Pegou-a em meio a tantas palavras de Clarinha e admirou a forma, a cor... E pensou: “Sou como essa pedra. Diferente, solitária, estática”. Assim como o dele, era o cotidiano daquele ser inanimado, que preenchia quase toda a palma de sua mão. Sentiu-a e observou seus detalhes.

Clarinha, curiosa e espantada, assentou-se no chão e admirou a essência da cena que se passava. Era de uma emoção tão singela, que a pedra parecia compartilhar algo com o menino.

Foi para casa pensativa. E decidida a continuar indagando para descobrir o segredo, ou o mistério que corria no silêncio daquele menino.

Com a pedra em seu bolso, o menino percorreu o mundo em suas fantasias. E com ela, viu novamente o lindo baile que tanto o tocava e alegrava. Não mais pediu dinheiro ou vendeu balas no sinal. Os pais o “demitiram” após o fiasco do dia anterior.

Olhou novamente para a pedra redonda. Ela podia responder, conversar e falar por ele. Eram a mesma coisa, tinham os mesmos sentimentos, isso era ótimo! Já que era igual ao menino, falaria por ele, já que tinham a mesma opinião. Por isso, quando Clarinha assentou-se ao seu lado no intervalo, a pedra ficou entre eles. Achando estranho aquele fato, a menina fez perguntas e mais perguntas. O menino ouvia e respondia mentalmente, movimentando a pedra, como se ela respondesse por ele. O mais estranho é que mesmo sem olhar para os olhos de Clarinha, ela parecia captar o que respondia. Assim, eles se comunicavam e se entendiam. Mesmo sem a voz e o olhar do menino.

Assim foi por alguns anos. Até que a doce Clarinha criou um vínculo muito forte com o menino. E a paixão pelo oculto e pelo mistério faziam com que ela o adorasse, o achasse fantástico.

Um belo dia, ela decidiu expressar seus sentimentos, e contou para uma amiga que estava apaixonada pelo menino. Um amor inexplicável, sem olhares e sem palavras. Zombaram da doce garota, mas ela não se importava. Palavras não afetam um ser apaixonado, pois ele se baseia no amor. E o amor é um sentimento, não se baseia em palavras ou gestos, e sim na essência que unia os dois.

Nesse mesmo dia, ao assentar-se com o menino no intervalo e ver a pedra entre os dois, a garota falou sobre o que sentia, de sua admiração pelo humilde menino. Falou tanto, que não havia nem perguntas. Foi um desabafo, e a pedrinha não tinha nem o que dizer.

O menino sentiu algo diferente naquele momento. Alguém realmente se importava com ele. Clarinha sentia algo por ele. Mas como? Jamais alguém sentiu algo por ele, jamais! Isso era impossível!

Foi para casa e dormiu. Sonhou com Clarinha pela primeira vez.

Acordou assustado com um barulho estrondoso. Um tiro, um grito, um silêncio. Se escondeu, com medo e sentiu o alvoroço, a correria, a confusão. E por baixo da porta via o sangue. Era o sangue de seu irmão João, morto na porta de sua casa. Mas teve medo, e ficou quieto no lugar onde estava.

Enterraram João. Todos tristes, chorando desesperadamente. Menos ele...menos o menino. Ele não derramou uma só lágrima, não tinha essa capacidade de chorar mais.

- Seu coração é inerte como uma pedra!

A fala de seu pai atingiu perfurou essa pedra.

Chegando na escola, sentiu algo horrível! Clarinha colocou a mão sobre seu ombro, e o contato gerou uma descarga elétrica que circulou por seu corpo, fornecendo energia para bater aceleradamente seu coração. Ninguém lhe tocava desde o dia em que fora espancado pela última vez. O medo e o susto fizeram-no correr. Corria, segurando e abraçando a pedra fortemente contra seu corpo. Chegou na praça dos bailes, assentou-se no banco e tentou se acalmar.

Pela primeira vez, alguém tocou-o sem qualquer agressão. E sim, ele havia sentido aquilo. Pegou a pedra e a viu. Estava estática, em contradição à sua ofegante respiração. Percebeu que ela não parecia sentir como ele se sentia naquele momento.

Clarinha se sentiu ainda mais agitada e determinada a continuar explorando o antes inexplorável. E no outro dia, não encostou nele, com medo de que fugisse novamente. Queria estar ao seu lado ao menos. Sentir seu coração batendo forte na presença do dele. Isso a deixava feliz. Desse dia em diante, escreveu inúmeras cartas, declarando-se.

Um dia, tomou coragem e disse “Eu te amo” para ele. Tímida, correu.

A pedra, no entanto, não tinha respostas para tudo aquilo. Ela não podia responder a uma declaração de amor. Ele, de repente se situou no mundo, bastante assustado. Dessa vez, ELA correu, e não ele. Sentiu seu coração se disparar como jamais batera antes.

A noite nunca foi tão longa para aquele pobre menino. Foi para a praça e assentou-se. Enfiou suas mãos em seus bolsos, e para sua surpresa, não havia apenas a pedra, o silêncio e a escuridão. Havia uma boa quantidade de cartas e bilhetes, nos quais ele sempre evitara encostar. Eram dela. Tomou coragem e pegou um deles. A pedra estava num lugar fundo, bem fundo no seu bolso. Olhou-a atenciosamente. Era sem graça, insossa, e não mais lhe servia para conversar com a doce Clarinha. “Doce? Doce garota? Pensei isso? Sim...pensei.”

Então, ao invés de a pedra pensar por ele, ele pensou por si. Libertou-se de seu silêncio de tantos anos, balbuciando o nome: “Clara” à pedra. Como se desabafasse com alguém por telepatia, desabafou com a pedra. E “conversaram” por um bom tempo. Até que ele a guardou e voltou-se para a carta na outra mão. Abriu cuidadosamente o envelope. Estava desenhado, bordado com as letras da jovem. Leu, pois, todas as cartas.

Pela manhã, tomou seu café, porém dessa vez com açúcar, e foi para a escola. Ao ver Clarinha, ambos ficaram parados. De cabeça baixa, hesitou-se em pegar a pedra em seu bolso, a emoção e o nervosismo geraram um passo atrás, e um desequilíbrio que a levou ao chão. Ela rolou até os delicados pés de Clara, que a pegou.

Timidamente e lentamente, ela foi em direção ao garoto entregar-lhe seu bem tão precioso. E, ao abaixar-se e estender-te a mão com a pedra, ele levantou a cabeça, de súbito! Olhou seu rosto, num gesto que pareceu provindo de um esforço tremendo. Mas ao vê-la, pôde contemplar a doçura e o encanto de seu olhar. Parecia um anjo. E talvez fosse realmente um.

- A pedra...

Disse Clarinha, novamente mostrando-lhe.

Ele olhou a pedrinha, que parecia menor ainda em meio a dimensão daquele sentimento, daquele momento. E segurou o objeto firmemente. Olhando-a em suas mãos novamente, percebeu que pedras realmente não sentem.

A pedra não poderia amar por ele.

Então, jogou-a no chão e deu a mão a Clarinha.

sábado, 14 de julho de 2007

Conto premiado no 11º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de literatura, 4º lugar.

Transformação que move o ciclo

Izabella Agostinho Pena

Seu rosto estava completamente coberto por lágrimas. Chorava como nunca. Em seus olhos, podiam-se perceber sinais de uma chama fraca, sem luz ou calor. Foi quando uma chuva forte começou. Forte como um desejo de ser feliz, de viver melhor. Os intensos raios e trovoadas anunciavam a chegada de uma tempestade que enchia rapidamente as calhas e fazia transbordar em poucos minutos os rios. Seu rosto e suas roupas estavam encharcados, umas misturas de águas: de seus olhos e dos céus. A tempestade parecia compartilhar com ele seus sentimentos.

De repente, o triste homem sentiu uma forte náusea, uma ânsia de vômito. Deu uma última olhada para os céus e ao aturdir-se com a dimensão da chuva, sentiu o turvar de sua visão. Tentou, desesperadamente, buscar ajuda, saindo correndo pelas ruas. Foi quando um homem, com olhar doce, aspecto calmo e sereno o interceptou e, calmamente, perguntou:

- O que houve? Posso ajudá-lo?

Nesta hora, a tristeza e as lágrimas foram maiores que a razão e a força da tempestade. O homem sentiu um estremecimento de suas pernas e uma tontura muito forte e caiu no chão, fazendo espirrar águas empoçadas na calçada, empurrando o peso do mundo de suas costas para longe, só por um instante. Estava desmaiado.

O homem que o interceptou, rapidamente, chamou ajuda e levou o desconhecido para um hospital próximo. Lá foi atendido e remediado após acordar. Nessa hora, recebeu a visita do cidadão que o salvara, e foi logo dizendo:

- Obrigado por me ajudar, me trazer até aqui. Não sei o que seria se... Ah! Desculpe-me o incômodo!

- Amigo! Não é necessário desculpar-se! Tenho enorme prazer em ajudar. Como se chama?

- Sou Carlos, Carlos Antônio. E o senhor?

- Paulo Freire. Sou educador. Perdoe-me a pergunta, mas o que houve?

- Ah, senhor Paulo. Senti uma náusea...

- Talvez tenha comido algo estragado, ou coisa assim.

- Pode ser. Porém acho mais provável ter ficado assim por engolir palavras. Palavras de quem nunca reconheceu um verdadeiro esforço. Ou não quer enxergar...

- Espere, Carlos. O que tenta me dizer com tão tristes palavras? O que aconteceu?

- Perdi o emprego, senhor Paulo. Perdi!

- Mas por quê perdeste?

- Sou analfabeto, senhor. Porém fazia muito bem meu trabalho. É melhor desistir mesmo. Não tenho futuro.

- Espere! Não desista nunca! A esperança em relação à possibilidade de mudança é o pré-requisito indispensável para o sucesso!

- Mas olhe para mim, senhor! Tenho vinte e três anos, e mal sei escrever meu nome! Não consigo encontrar emprego, e sem trabalho, como sobreviverei? Sempre sonhei em ser alguém na vida, mas nunca pude estudar, já que, desde cedo tive que trabalhar para ajudar meus pais. Como concretizar o sonho de um fracassado? Como ter esperanças se nunca tive oportunidade alguma?

- Amigo... Uma das condições necessárias para se pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas. Confie em seus objetivos. Faça renascer sua aspiração por lutar e seguir em frente.

Carlos olhou para Paulo Freire e sentiu algo inexplicável. Como se aquele homem que o acolheu e salvara pudesse realmente mudar seu destino. Sentia enorme confiança em suas palavras e uma bondade angelical em cada gesto, além de uma serenidade que o fez voltar a sonhar. E se realmente estivesse certo? Não era hora de se sentir inapto a seus objetivos. Paulo era o incentivo que precisava para se recompor e continuar a busca incessante pela felicidade com uma indescritível vontade de mudar o caminho pelo qual seguiria daquele dia em diante.

- Confiem em mim! Estou dizendo. Sou um educador e meu sonho é ver esta nação alfabetizada! Estudar é um trabalho difícil! Exige de quem o faz uma postura crítica. É isso o que almejo: que todos pudessem se inserir no mundo através de uma educação com interações culturais e críticas. Carlos, quero ajudá-lo! Acredite! Quero transformar esse mundo injusto, onde necessitamos de uma visão ideológica e não materialista. Vejo em você, um futuro promissor, e suas palavras me provam isto.

Carlos se emocionou com as palavras de Paulo. Nunca alguém lhe estendera a mão. Jamais ouvira um elogio. Percebendo sua emoção e admiração, o educador prosseguiu seu discurso:

- Estou executando um projeto de alfabetização de adultos, e convidando-o para ser meu aluno, o que me diz?

- Aprender a ler e a escrever? Estaria realizando um de meus sonhos!

Uma sensação de paz e tranqüilidade tomava conta de seu coração. Sentia realmente estar no caminho certo. E estava! Combinaram o local e o horário das aulas que Paulo Freire lecionaria. O tempo foi passando e o pobre homem aprendeu a ler e a escrever. Porém não parou por aí; O educador descobriu em seu aluno habilidades singulares. Descobriu que as palavras e frases que dizia soavam como poesia. Incentivou Carlos a colocar no papel seus sentimentos e emoções. Escrevia com amor, numa mistura de razão com palavras do coração. Paulo incentivou-o a escrever para se libertar, para se transformar. Assim, escreveu um livro.

Editaram o livro, que fez muito sucesso. E Carlos escreveu mais e mais. Escreveu tanto que montou uma editora. Seus livros tinham ideais que fascinavam e encantavam os leitores, contando histórias de vida, aventuras, poesias... e todos com uma mensagem de esperança, encorajamento e mudança.

Alguns anos se passaram e Carlos tornou-se mundialmente famoso por seus livros que distinguiam a misteriosa ressonância do inexprimível afinal expressado. Talento esse que Paulo Freire o fez descobrir. Em 1961, onze anos após seu encontro primário com seu professor, deixa o Recife e muda-se para São Paulo onde institui uma nova editora, que progrediu tanto quando a construída em seu estado natal.

Esta viagem a São Paulo ocasionou num distanciamento entre ele e seu incentivador. Este último, tornando-se cada vez mais importante, estava atuando nos segmentos culturais e educacionais do Recife, e mais do que nunca: alfabetizando, transformando, libertando, levando seus ideais e dando esperança a tantas pessoas. Seus métodos de alfabetização eram geniais, e a cada dia que se passava, mais os aperfeiçoava.

Carlos ia alcançando fama e sucesso. Mas será que esse êxito seria o suficiente? Seria justo olhar para seus bolsos com dinheiro e para os olhos de pessoas nas ruas pedindo uma miséria pra viver? Ainda ao olhar e concentrando-se nelas: por que estão nas ruas? Será que se tivessem conhecido um Paulo Freire como ele conheceu ainda estariam nas ruas? Porém, o que fazer? Indignado com tão dura realidade, escreveu livros sobre ela, onde fazendo indagações, procurava por respostas. Mas ainda não era suficiente. Sabia que algo estava faltando. Afinal: tinha uma missão! Teria que descobri-la!

Dois anos mais tarde, Carlos viu na mídia que Paulo Freire realizara uma façanha: através da criação de um método inovador de ensino, trezentos adultos aprenderam a ler e a escrever em quarenta e cinco dias. A felicidade tomou conta de seu rosto ao ver seu mestre realizando tão belos trabalhos. Sabia que será eternamente grato a ele por inseri-lo na sociedade e por ter mostrado-lhe uma nova visão crítica e libertadora do mundo. Só assim, podia escrever, editar, vender e viver.

Sua felicidade acerca da de seu mestre durou pouco, aliás, aproximadamente um ano. Em 1964, foi instaurada a ditadura militar, e o gênio da educação, Paulo Freire, foi preso, acusado de atividades subversivas, como pregar o comunismo e, em setembro, exilado.

Este fato alarmou a paz de Carlos. Indignado e revoltado com tais atitudes do governo, decidiu que ajudaria Paulo de alguma maneira. Decidiu mandar a ele, primeiramente, livros que escreveu e outros os quais com certeza apreciaria. Grato pela solidariedade, o exilado mandava cartas onde expressava sua indignação com atos tão inescrupulosos do Governo Militar. Carlos também tinha medo de ser preso, já que a censura era impiedosa. Então, passou a expressar cada vez mais implicitamente a revolta em seus livros.

Durante o exílio, Paulo recebia todo tipo de ajuda de Carlos. Porém, nenhuma ajuda o deixou mais feliz do que a chegada de sua família em Santiago através da ajuda de seu amigo. O tempo ia passando e no Brasil, as pessoas iam sofrendo cada vez mais com as atitudes repressoras dos militares. No exílio, Paulo continuou escrevendo e editando seus livros com a ajuda de Carlos, que ficava lisonjeado ao ler as obras magníficas de seu mestre. A repressão e revolta que sentia tornavam-no capaz de desnudar e identificar os códigos externos e internos destas. Assim, escrevia obras de arte, sentindo e expressando seus sentimentos e humanizando seus livros. O tempo passou e a ditadura se foi com ele, como um flash que nos cega por alguns segundos e, em seguida, nos revela uma imagem bela ou o contrário, uma imagem sem foco. A ânsia aos exilados trouxe o educador de volta ao Brasil. E a primeira coisa que este fez foi visitar seu amigo Carlos, que tanto o ajudou e apoiou.

Ao olhar para seu mestre, Carlos sentiu que tudo o que fizera para ele no exílio ainda não era o suficiente, diante da transformação pela qual passara graças a ele. Desta forma perguntou o que fazer para ajudá-lo à altura da ajuda que recebera. Sua resposta foi:

- De veios naturais, brota-se água límpida e cristalina, dando origem a pequenos córregos que seguem seu caminho se juntando a outros e dando origem a grandes rios. Porém, alguns córregos não conseguem encontrar outros e secam. A natureza é perfeita e dá continuidade ao ciclo, pois a água desse pequeno córrego evapora-se e se torna chuva e vida.

Carlos logo captou a mensagem. O homem, bem como um córrego da natureza, necessita de ajuda para guiar seu caminho e dar continuidade ao ciclo. Sentia-se, naquele momento, capaz de se tornar o calor que evapora a água e a transforma em chuva. Sim! Finalmente tinha descoberto o curso de seu rio.

Dessa forma, pediu a Paulo que o deixasse seguir com ele em suas jornadas filantrópicas para transformar, libertar e dar esperança de vida aos oprimidos. Com a resposta positiva do mestre, Carlos sentiu que tinha desvendado a principal das potências de sua alma e que toda a sua energia estava disponível à sua persistência no querer realizar.

Depois desse dia, juntamente com Paulo, Carlos caminhou, andou, se cansou... porém cansaço nenhum era superior a felicidade que sentia ao ver o sorriso de uma pessoa sendo alfabetizada através de sua ajuda. Tornou-se o principal discípulo do grande mestre seguindo seus ideais de que “uma educação humanizada é o caminho pelo qual homens e mulheres podem se tornar conscientes de sua presença no mundo”.

Emocionantemente, a caminhada seguia. Até que, em 1997, aos setenta e cinco anos, morre Paulo Freire, o maior educador da história. A tristeza de Carlos era enorme, porém sentia que a luta não havia morrido com ele. O ciclo é contínuo. E sua missão era transformar.

Em sua homenagem, alguns meses depois, funda o colégio Paulo Freire, onde os ideais libertadores e de instaurar pensamentos críticos que levam à transformação (frutos dos ensinamentos do homenageado) eram prioritários. De cabeça erguida, Carlos dava continuidade ao ciclo, seguindo os passos de seu mestre querido, e assim como ele, descobre que “se de um lado, a educação não é a alavanca das transformações sociais, de outro, estas não se fazem sem ela”, e “que aos oprimidos do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam.

E a luta continua...


-Uma homenagem ao grande mestre Paulo Freire (1921-1997)-



Conto que escrevi em homenagem à grande educadora, escritora e poetisa feminista Nísia Floresta (1810-1885)

Memórias de uma mulher de verdade

Izabella Agostinho Pena

Por aqui me chamam de Diva. Sou negra, nasci no continente africano e fui trazida ainda criança para o Brasil. Fui escrava, mas graças a um anjo, sou livre. E mais, tenho orgulho em gritar alto: sou mulher e sei ler e escrever!

Não sei se alguém lerá o que estou a escrever nesse momento em que reina sobre mim um céu negro, e mesmo negro brilha em sua imensidão um punhado de estrelas que me trazem a esperança de que o futuro seja humanitário. Se o negro brilha no céu, é possível que também brilhe em nossa terra.

Recebi uma carta de D.Nísia. Foi escrita há quase vinte e sete dias. Mais precisamente: no dia em que se esvaiu às sublimes lembranças e seu espírito subiu aos céus, mas sei que ressuscitará em cada menina que entrar na escola, em cada mulher que consiga seu espaço, ou em escravas alforriadas que virão a se tornar novas mulheres.

Mulher. Uma palavra antes insignificante. Ser mulher era sinônimo de inutilidade, de vergonha para mim, porém hoje é diferente, é muito melhor que isso. É o que sou, o que tantas são e querem ser. Ser mulher não é ter afinada a “educação da agulha”. É ter a educação da verdade, saber línguas, conhecer sua terra e suas essências. É usar o conhecimento adquirido em prol de levá-lo a quem não o tem.

Carreguei sinhá Nísia no colo. Ajudei a criá-la e, desde pequena, me ajudou a ver a vida de outra forma. Lembro-me de um dia em que viu um feitor a me transformar num rio de lágrimas, de cor vermelha e com o silêncio em sua margem. Assim que foi embora, a pequena Nísia veio a acudir-me, e assentou-se a meu lado. Deitou-me em seu colo e pôs-se a acariciar meus cabelos. Uma sinhá tão pequena, e uma imensidão de menina ao mesmo tempo. Ela irradiava uma luz de compaixão e carinho, tão grande que tornava minha dor uma agulha num palheiro.

Era difícil para uma menina, como Dionísia, entender que a mulher de nossa era é submissa e menor que o homem. Eu, além de mulher, escrava era. Dominada, vivia em sujeição aos meus senhores. Os maus tratos, a fome, a violência e a vontade de ser humana tomavam conta de mim. Sinhá Nísia, na época tão nova, parecia entender meu sofrimento. Sem dizer uma palavra, ela se levantou e foi para perto de um riacho. E, timidamente, chorou.

Vendo sua letra tão bordada na carta que me escreveu, acabei por lembrar-me de quando ela estava aprendendo a escrever. Escreveu em letras grandes e desajeitadas seu nome primeiro: Dionísia. Veio correndo a me mostrar, mas em vão. Eu não imaginava o que significavam aqueles símbolos no papel. Perguntou-me: “Não sabes ler, Diva?”. Respondi a ela que não, escravos não liam, pois quem haveria de se dispor a ensinar uma jovem escrava a ler?

Nísia pensou, pensou. Estava indignada com minha revelação. Penso o que se passaria na cabeça dela naquele momento. Até que se libertou do silêncio, de súbito: “Eu, ora pois!”. Fiquei um tanto estática, surpresa. Nem acreditei que alguém um dia iria me ensinar a entender o que dizia cada um daqueles símbolos. Era uma emoção tão grande o que sentia, que só de me lembrar, sinto uma sensação tão boa dentro de mim, que me abre um sorriso. Algo inexplicável, mas que mudou minha vida. E vendo meu semblante incrédulo, disse com ar oficial: “Eu, Dionísia Gonçalves Pinto, hei de ensinar-te. E logo, vamos! Tens vontade?”.

Senti enorme confiança em suas palavras e uma bondade angelical em cada gesto, trazendo-me uma serenidade tamanha que me fez sonhar.

Despertei-me de minha fantasia no momento em que Nísia puxou meu braço e saiu a correr, me segurando, até chegarmos a um riacho nas proximidades. Pegou uma pedra e começou a riscar o chão de terra. Escrevia humildemente as letras, que, para mim, eram mais que símbolos. Eram o início de meu caminhar em direção à aprendizagem e ao conhecimento.

Começava a enxergar a vida de uma maneira diferente. E o anjo que estava me conduzindo a essa visão era em formato de menina. Uma menina humilde que começou a entender as injustiças do mundo. A entender que a sociedade impunha regras, e que a sociedade era o homem. E ela não estava disposta a seguir tais regras que tornavam, nós mulheres, inferiores.

Vontade é, sem dúvida, a maior das potências da alma. O querer e o lutar por realizar. Em todas as épocas de sua longa vida que convivemos juntas, o brilho de seus olhos mostrava essa indignação e essa vontade de mudar.

No dia em que começou a me ensinar a ser o que sou hoje, percebi que Nísia nasceu para ser mulher de verdade. Mas não ser apenas ela, e sim ser todas as mulheres dessa terra de imensidões incalculáveis. Mostrar a elas que mulher também estuda, manda, tem posses e, sobretudo: tem liberdade!

A noite chegou naquele dia mais leve que uma pluma do mais belo pássaro. Sempre me admiro com o brilho magnificente das estrelas. Tinha a vontade que Nísia indagara-me, e me sentia prestes a brilhar como elas.

Hoje estou velha, mas graças ao bom Deus, tenho boa saúde. Meus braços chegam a doer de tanto escrever. Mas é prazeroso! Orgulho-me demasiadamente de dizer que tudo o que sei é graças aos ensinamentos de sinhá Nísia, em minha adolescência, juventude e hoje ainda, pois continuo a aprender com as ações de uma grande mulher.

É em momentos, como agora, que sinto a presença de minha menininha, como uma filha para mim, mas que também fez papel da mãe que não tive. Pedia-me, inclusive na carta, que jamais parasse de escrever e expressar-me, pois expressando meus sentimentos e emoções, recebo também a felicidade e um imenso prazer moral.

Ninguém sabe que os livros, cujo autor é Augusto João, são em verdade, de minha autoria. João é o nome de meu filho primeiro, e Augusto é em homenagem à minha mestra que se nomeia Nísia Floresta Brasileira Augusta. Anteontem, tive coragem e consegui publicar um artigo em meu nome. Tenho medo de não me aceitarem como escritora. Por isso, um pseudônimo.

Foi uma surpresa para todos quando a mulher Nísia publicou seus primeiros textos. Foi só o primeiro de muitos passos de uma mulher à frente de seu tempo. Incentivou-me a seguir seus passos, e quando foi-se para o mundo afora a levar suas idéias, me incumbiu de ficar, e ajudar tantas outras mulheres a serem mulheres. Partiu, e nunca mais a vi. Mas ficou e ficará eternamente em minha mente, como um anjo ao meu lado. E creio: era realmente um.

Para chegar a um destino é necessário dar o primeiro passo. Ela deu. O primeiro de muitos. E eu devo continuar essa caminhada para que, quem sabe um dia, ocorra a verdadeira libertação de todas as mulheres, como ela que, com sua magia e luz, me libertou.

Nísia Floresta nasceu destinada a mudar a história de todas nós mulheres. Nasceu para carregar bandeira. A bandeira da luta pela emancipação feminina e a obtenção de seus direitos. E carregou.