domingo, 5 de fevereiro de 2012

Madame

Izabella Pena-Neshich
Madame que ame
no telefone seu nome,
madame que ande
e desande, sem fome

Os servos lhe sirvam
a alma e a vida
amém, madame
e ai se não lhe sorrirem!

sempre bela e grácil
formosa, esbelta, fácil,
nada a fazer
nada a temer
nem nada a ler

um ócio vazio
um dia macio
o assobio a leva
de um modo arredio,
Madame sem nome
só codinome
leva em sua vida vazia
toda essa agonia
que me asfixia

Que descortesia!
Eu, simples cortesã
sem nenhuma cortesia...
Me grita um sopro acuado
me leve praquele lado!
Pra eu viver madame,
madame sem nome
e vazia, viver essa vida de imagem
vida sem mensagem...




NÃO, OBRIGADA!





P.S.: Escrevi essa poesia após assistir ao filme "The Age of Innocence", de Martin Scorsese.

domingo, 22 de janeiro de 2012

See you, Giko

Izabella Pena Neshich
Só penso em sua carinha...
olhos nos olhos
se exibindo pra mim


Difícil entender por quê o vento leva
Díficil aceitar por quê o dia raia
Difícil viver sem esse quentinho do meu lado


Como a onda que quebra dia após dia
como a chuva que cai e me leva junto
como a lua que vai e volta em um ciclo de brilho e luz...


eu sei, um dia eu vou sentir
o seu quentinho do meu lado de novo
o estudo de madrugada
sua companhia, sua alegria
seu carinho, sua manha


enquanto isso a toalha está molhada
sua caixinha permanece no mesmo lugar
um olhar distante eu lanço na alvorada
pra esperar esse dia chegar



sábado, 24 de dezembro de 2011

Dicionário de termos populares

Izabella Pena Neshich

  Hoje passei um bom tempo conversando com minha queridíssima avó Dirce (foto) que, ao longo de seus muitos causos e histórias, inseria raros termos populares. Eu, um tanto curiosa, e querendo conhecer mais sobre a linguagem local de um município no interior de Minas Gerais, pedi a ela que discorresse sobre algumas palavras por ela usadas e que são comuns na região onde vive. Anotei-as, bem como seus significados e, depois de umas boas risadas, resolvi compartilhar esse pouquinho de cultura com você que está lendo esse texto agora.

  Esses são alguns termos interessantes usados pelas pessoas da roça mineira e que me chamaram a atenção. Confesso que alguns eu inclusive uso! E adoro usar. Usando, passo para o interlocutor um pouquinho dos costumes de minha família e do povo da região. E que legal perceber que a nossa cultura brasileira é ainda mais interessante e diversificada do que se imagina! Os neologismos, as palavras adaptadas, os significados, as origens variadas...

  Gostaria de reforçar que se por acaso quiser procurar no dicionário, creio que muitas palavras não serão encontradas. Porém não são neologismos de minha própria avó, uma vez que outros moradores do local também compartilham deste conhecimento.

Jacú : Pessoa boba, lerda ou que acabou de cometer algum tipo de gafe;

Pistolo: Alguém "jacú", muito bobo;

Puaia: Pessoa chata, enjoada e/ou irritante. Segundo minha avó, a origem do termo "puaia" está relacionada a uma fruta da região que recebe esse nome e tem gosto extremamente amargo;

Sambanga: Um pistolo, pessoa boba.

ÍnguaPuaia, gente chata e/ou irritante;

Pustema: Pustema, segundo as pessoas da roça, é aquele machucado que dói, com sensação de latejamento. Associam, pois, às pessoas que irritam e pisam nos pontos fracos dos outros;

Purgante: Pessoa amarga, que gosta de provocar os outros;

SungarLevantar (Ex.: Sungar as calças);

Pisteba: Pessoa sambanga, boba;

Patureba: Pessoa sambanga, tola demais e mais lerda que o normal;

Ativa: Aquele que é sadio, espevitado;

CuriscoAquele que é rápido e esperto;

Velhaco (pronuncia-se 'veiaco'): pessoa ativa e curisca que adora tirar proveito das situações;

Atentado: capetabagunceiro;

Carochar: Pode possuir vários significados, de acordo com o contexto. Exemplos: Enrolar, paquerar , contar mentiras, fazer trabalhos incorretamente.

PerrenguePessoa que está baqueada, cansada e/ou lesada;

Capioa: Pessoa que recarrega de hora em hora a sua tolice, sua jacuzice;

Sapecar: Dar uma despistada, uma "carochadinha", fazer coisas incompletas. (Ex: "fulano sapecou aquele relatório");

Barrão: Pessoa gorda;

Barafunda: Mulher fácil;

RoncolhoHomem estéril;

Bisca: Pessoa falsa, má;

Cantar o carrinho: Falar mal dos outros;

Anca: Quadril;

Ronceiro: Vagaroso, lerdo;

Enchamprada: Adjetivo exclusivo para caracterizar bundas retas, sem curvas;

Encurrunhado: Adjetivo específico à culinária fracassada quando, por exemplo, um bolo não cresce e fica com aspecto murcho, diz-se que este esta "encurrunhado".

Muncadinho: Diminutivo de pouco. Possui vários sinônimos: "tiquinho", "cadinho", "bocadinho", entre outros;

Bicho do mato: Pessoa tímida;

Rudo - Aquele com dificuldade de aprender;

Descanhotada - Aspecto do bêbado ao deitar-se em uma cama. Por exemplo, na frase "A Silvia estava descanhotada", entende-se que ela estava bêbada, deitada na cama com os braços para um lado, pernas para o outro, boca aberta e babando;

Bodoque - Estilingue;

Mamú - Sinônimo de jacu, sambanga, bocó, pistolo e patureba;

Suã - "Escadeiras" = Coluna lombar;

Enquijilar - Não crescer. Usa-se o termo enquijilado para caracterizar pessoas que não cresceram muito;

Encurrugado - Aspecto de pele seca e com rugas;

Dilurimento - Diarréia

Derrigar - Ato teatral de encostar-se na parede e deslizar-se dramaticamente até sentar-se no chão. Executado em momentos de tristeza extrema.

Empirriada - Galinha choca.

Bobiça - Fazer bobeiras, brincadeiras sem graça, embondos ou atitudes desnecessárias;

Embondo - Atitudes supérfluas e desnecessárias;

Arranchar - Ato ou ação de ficar na casa de outra pessoa por muito tempo, se aproveitando da hospitalidade da pessoa;

Carretão atolado - Sinônimo de arranchar;

Dar conta - Conseguir, ser apto. Quando uma pessoa não consegue executar uma ação, ou não é apto, diz-se que a pessoa "não deu conta";

Atolar - Afundar-se e prender-se;

Arredar - desviar lateralmente;


Seguem abaixo algumas expressões enviadas pelo amigo Elton Melo que, segundo ele, são usadas por sua avó do Sul de Minas Gerais (contribuições são sempre bem-vindas!):



Campiar:  Expressão usada em fazendas para procurar gado no campo; popularmente: procurar algo qualquer.
Desandar: Ter diarréia.
Lograr: enganar
Nó cego: pessoa difícil de se lidar ou conviver!! Chato, implicante!!
Carrancudo: cara fechada, de mau humor!!
Larida: (alarida) algazarra, gritaria, bagunça!
Anuviado: Diz da dificuldade que a pessoa sente para ver determinada coisa; como se tivesse uma nuvem impedindo a visão. "Olhei, olhei, mas não vi nada, tava com os olhos anuviado".

Sobrecu: ou curanchim, Protuberância que as aves têm acima da cloaca; mitra, uropígio, da onde saem as penas do rabo do frango.

Breganha: o correto é barganha, significando: troca!
Frango queipira: na verdade seria frango caipira!!
Posar: o correto seria pousar,significando dormir na casa de alguém!!
QueemDeuspadi: Crê em Deus Pai!!!
Pé de boi: pessoa muito esforçada e trabalhadora, lutadora (ex: nós!)!!!!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fim da graduação

Izabella A. Pena Neshich
Sinto o cheiro cada vez mais forte
O sabor é maravilhoso
Os meus olhos brilham em ver aquela porta aberta

Eu que estive presa
Estive a ver os rios correrem
as crias batendo as asinhas pela primeira vez
e eu não podia voar naquela vez

Eu que via a vida passar
E estava aqui, presa...
Em um universo de vermes e nomes
sermões, sofismas, zelo e fascínio
via a vida a voar, as crias a cantar...

Agora vou-me embora pra Pasárgada
vou passar por aquela porta aberta, aquela mesma porta!
Vou voar em uma vida liberta
a lembrar-me dos bons amigos pássaros
e a repetir os cantos aprendidos...

agora chegou a minha vez,
vou voar para a minha floresta,
vou viver, vou construir o meu ninho,
amar, amar, amar e amar....







P.S.: Obrigada aos mestres pelos ensinamentos que levo comigo. Obrigada aos colegas pela amizade e companheirismo! Levo para sempre comigo meus anos de Biologia nas minhas queridas UFMG e UNICAMP! Obrigada a todos que caminharam comigo por esse longo percurso. Obrigada a minha família e meu querido marido que sempre estiveram ao meu lado! Obrigada aos mestres Beirão, Miguel, Goran, Jardine, Mírian e Paulo, por me guiarem, ensinarem e terem sido tão pacientes nestes 5 anos. Obrigada Terra, obrigada por conter seres tão fantásticos e por nos trazer tantas lindas histórias pra contar!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Escrito eterno

Izabella A. Pena-Neshich
Gente que vai
gente que fica...
os ventos se vão,
levam embora as palavras,
levam embora a matéria,
levam embora aquele dia-a-dia...

que bom que não levam embora a poesia...


Homenagem a um querido amigo poeta.





segunda-feira, 27 de junho de 2011

Biologia sem poesia


Izabella A. Pena Neshich
Nesta noite a Biologia não me inspira poesia
O cansaço fez um buraco no meu papel,
quebrou a ponta do meu lápis
e acabou com a tinta da minha caneta

Parasitas digerem a minha mente,
Parasitas inúmeros, incontáveis
Levam embora a minha vida
me escravizam, sem saída

Só espero, desejo e almejo
que esse terror, esse parasitismo vá embora!
vá, ande! Saia de mim! Move on!
Me deixem em paz!!

Quero viver logo sem esses parasitas,
Quero sentir minha mente sã,
Quero logo a minha carta de alforria!!!
Quero recuperar logo a poesia que me inspira a Biologia...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Vermes, malditos vermes

Izabella Pena Neshich
Olhe pra você!
Um mero minúsculo inútil ser
Um pífio montante de insignificância

Veja a sua presença
nada mais incita
que uma reação maldita,
uma ferida que irrita!

Migra, migra, migra
MORRA na praia...
a sua cara que se entoxique
do seu veneno e se esvaia!

Me deixe, seu verme maldito
não quero saber qual é o seu mito! Não me interessa!
Vá procurar outro louco
pois aqui não cabe nem mais um pouco...


domingo, 17 de abril de 2011

Poema do Giko (Žika)

Izabella Pena Neshich 
Gato Giko
Giko Gato
Segue o pato
Giko sapato

Giko molhado
Bebeu aguinha
molhado e cansado
Giko amassado

Giko, nariz achatado
Chato esse Giko gato!!!
Espreguiçou aqui do meu lado
um soninho vem de troco,
que Giko dorminhoco!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Café

Para os amigos da Bioquímica da UFMG que não vejo mais... saudade do nosso café das 15:30
Izabella Pena-Neshich


Não sei expressar a complexidade da música. Mas talvez possa explorar um pouco sobre a complexidade do café. Ah...o café... tem coisa melhor? Pior que tem! Mas café é tão gostoso como música, tão social como cerveja, cheiroso como perfume, forte como tempero picante e viciante como chocolate!
Quando bebo minha grande xícara de café, me lembro de muita coisa. Sinto muita coisa também. A cor, o cheiro, o sabor... a companhia... Impressionante como as coisas interligam-se, e se tornam um universo de sinestesias.
O café tem hora fixa, um momento interessante. Enquanto tomamos e sentimos o sabor forte e doce do café, os carros passam pelas grandes avenidas, o vento passa, as pessoas continuam andando, o rítimo continua o mesmo, a chuva cai, e estamos tomando café. A bebida dos amigos, dos colegas de trabalho, dos inimigos e dos amantes. Momento de descontração, de sentimentos, pensamentos...
Café que nos acorda para um mundo em que os carros andam e a chuva cai. Nos mostra que o vento passa e as pessoas continuam andando. E assim, andamos com elas, ou corremos... Nos sentimos acordados, nos acordamos para mais um dia, ou mais uma tarde, ou mais uma noite. Num momento de esquecimento e lembrança de tudo, e nos agita para a continuidade de nossa rotina, nos lembrando que amanhã, no mesmo horário, tomaremos nossa xícara de café.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Vaga música

Izabella Pena-Neshich

Canção que dita os passos desta dança
e danço sem querer jamais parar!
Danço porque o instante existe
e minha vida está completa!
Danço porque a música me leva,
exalta e alegra!!
Danço porque cantas minha música
ditas meus passos...
A melodia pode ser eu mesma, ou você...
e a letra, é a minha história, a nossa história.
A qual saboreamos o cheiro, o calor...
E faz minha busca fantasiosa pela origem do som
ser sempre prazerosa...
Sem saber se fico na malemolência dos passos,
na majestosidade das notas
ou se atravesso noites e dias
naquelas palavras macias...
doces de se dizer
delicadas de se fazer
que criam a fantasia da canção, da dança
Danço a música do vento que bate
nas cordas do violão
Danço essa música de seda
entre chuva, núvens e luar
e na viagem daquela vaga música, eu vou...
não quero mais voltar...


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Certos livros que nos marcam... Há um livro de poesias que adoro sempre reler: "Viagem & Vaga música", de Cecília Meireles. Um livro de uma sensibilidade tamanha! Que me tocou muito em cada verso das poesias, que a autora chama de "canções"... E ela canta porque o instante existe, e sua vida então está completa. A canção, é a força que move sua vida, suas mãos, seus desejos, seus pensamentos...onde canções, cançõezinhas, cantigas, embalos e músicas são a sua força vital. Força que a move a viver e querer mais e mais a felicidade por meio dela, mostrando assim que canta e que a canção é tudo! Apesar de que, que um dia, a morte chega naturalmente, a canção será eterna... Por isso ela canta!
E por isso eu danço, e sempre vou dançar... cantando um pouco, mas me deliciando no prazer de sempre dançar nessa mistura de sentimentos e emoções que é a leitura!

Clusterizando emoções - campos semânticos no âmago da mente

Izabella Pena-Neshich
    Estava eu a andar pela rua quando encontrei um grande e velho amigo. Este ficou muito feliz em me ver, tal sentimento foi justamente o que senti por ele. Em meio a uma gama de novidades a contarmos um para o outro, todas expressas com um largo sorriso e simpatia, aconteceu-me algo que muitas vezes acontece e que nunca havia dado importância maior. Engraçado como quando pessoas tocam em certos assuntos, que pra elas pode não ter qualquer sentido, nos emocionamos profundamente. Quando ele tocou num certo assunto que me deixava emocionada, deu-me uma enorme vontade de chorar, e meus olhos se avermelharam. Eu porque sou extremamente emotiva e, segundo esse mesmo amigo, possuo a "linha da emoção" maior até do que a "linha da razão", porém é o que ocorre com tanta gente. É engraçado como são os sentimentos humanos, os que nos fazem sorrir e chorar, assim como uma lembrança pode nos emocionar e decepcionar com tanto poder. Uma lembrança apenas! Nem era pra eu me emocionar assim, afinal estávamos conversando tão alegremente!
    Nessa hora, me veio à mente uma cena que vi num desses jornais de hora do almoço. Em relação às pessoas que se comoveram tanto com o caso de uma menina que, por sinal tem meu nome, vítima de um crime bárbaro. Mas a cena não está totalmente e diretamente ligada à morte da menina. A priori pode ser que você pense que sim, mas analisando cuidadosamente o fato, é possível perceber que não. A cena foi de um senhor que não tinha relação alguma tinha com a menina jogada do prédio, dando uma entrevista à repórter sobre o tema. E, no meio da entrevista, quando dizia sobre o que achava do crime, o senhor desatou a chorar. A chorar muito, tanto que pararam de entrevistá-lo e ainda filmaram-o por mais uns segundos (típico da televisão sensacionalista). Mas acha você que este senhor estaria chorando realmente pela menina morta? Bem, que ele sequer a conhecia. Mas o crime se mistura um pouco com a realidade do povo brasileiro. Talvez a menina lhe lembrasse uma neta cuja morte lhe significaria muito, mas não diretamente à menina. Talvez ele se lembrasse de um dia ter batido numa filha da idade da menina, e tenha voltado a si um certo sentimento de culpa ou de arrependimento. Porque nossa sociedade nos faz sentir culpa por certos "pecados" que ela própria criou, seja por intermédio da política, da religião... O que é um pecado, aliás? Matar alguém e bater numa criança por um desobedecimento seriam pecados de magnitudes distintas para a nossa sociedade atual? Ou teriam, afinal a mesma dimensão? Será que realmente têm magnitudes diferente para a nossa mente? Bater num filho por este nos ter desobedecido seria, para a nossa mente, como realizar um homicídio?
    É nessas horas que eu percebo o poder que uma sociedade exerce sobre nossas idéias e nossas emoções. É nessas horas que vejo o quanto somos alheios a tudo à nossa volta. E se senti o que senti quando o meu amigo iniciou o assunto que conversamos, (não que seja um sentimento de culpa ou algum sentimento relacionado a crimes bárbaros) foi porque relembrei de algo que senti há algum tempo que fosse muito próximo do que estávamos falando.
    Nossa mente dá voltas e voltas num determinado campo semântico de lembranças. Posso muito bem olhar para uma pedra e relacioná-la à minha irmã! Então pedra e minha irmã estariam num mesmo campo semântico da minha mente. Assim como eu me emocionei com a menção de algo do campo semântico da parte mais emotiva possível de minha mente, o senhor também se emocionou. E a sociedade usa esse conjunto de idéias que se relacionam a um certo significado particular, para nos organizar. Para nos impedir de fazer algo, para que possamos nos sentir culpados por uma série de atos agrupados num mesmo "cluster" (agrupamento, aglomerado) de significação. E nos sentir culpados por um determinado tipo de ação nos organiza e nos prende em uma jaula comum. Pois uma sociedade sem medo de sentir culpa seria uma desorganização completa. Se não agrupássemos um assassinato, prisão, pecado, cadeia, culpa, dor, sofrimento e angústia num mesmo cluster de emoções, talvez o índice de mortes por homicídios seria maior do que é hoje em dia.

Chora o senhor por medo de um cluster de crime e violência. O qual pode agrupar uma série de atos, experiências, fatos e relatos. Chora o menino na esquina ao ver uma mulher, por culpa de um cluster que agrupe a mulher à sua mãe e desta sente uma saudade imensa, imensa! Chora minha mãe ao ler um livro, porque a história do livro está agrupada no mesmo campo semântico mental da história de seu pai. Choro eu mesma, pois o meu cluster de emoções é grande demais!

Súplica


Izabella Pena

Acorda, amor!
Vem comigo, vem?
Vem ver que bonito o dia lá fora!
Vamos! Sem pressa e demora...
Venha comigo agora!

Levanta! Acorda!
Venha para os meus braços...
para os meus beijos e abraços!
Venha, vamos! Vamos acertar os passos
E aproveitar, sem cansaço

Esse dia que começa
e termina agora
se o que começar nao terminar,
vivamos, pois, como outrora
e eternizemos nosso tempo que vigora

Vivamos a beleza da aurora!
Apreciemos as cores e as luzes!
cantemos, pois, a cantiga que denota
a beleza de um dia como esse
que nos espera, lá fora!

e deixe-me, agora
amar-te como nunca
amar-te como sempre
e venha comigo, amor...
vamos embora, sem demora!
Viver mais esse dia, lá fora

Inútil Incompletude

Izabella Pena

Valsa só. Dança sem par, sem música, sem vento nos cabelos, sem belo vestido a rodar e voar em meio ao vento sublimando o seu coração.

Triste destino o da dançarina sem par. Triste fim daquela pobre garota.
Sabe-se lá se o mundo respirava mais ou menos com os seus sentimentos sublimados por aí. Sabe-se lá o que sentiria o mundo sem sua falta. Assim como o grão de areia entre outros 6 bilhões, lá está ela! Sozinha a tentar! A tentar incorporar o que lhe ditam, o que lhe traduzem, o que lhe lecionam...

Impossível, ela diz. Impossível entender tantas línguas, tantas cabeças, tantas imagens, tantas medidas. Impossível juntar pontos opostos em um. Imposível determinar a forma e o volume de cada um dos grãos de areia. Uma pessoa só não é capaz de tanto.

Melhor voltar a sua insignificante existência, na qual só precisa dançar, flutuar e navegar em meio aos seus muitos, pensou. Vagos e intimos olhares. Não precisa de nenhum outro ensinamento.

Nesse meio o qual flutuam os ideais de uns e evaporam os ideais de muitos, por quê diabos ela, dançarina solitária, nao pode simplesmente ser ela mesma? Ter suas idéias e fazer o que tanto deseja fazer?

Por que não ter filhos agora? Por que não fazer o que lhe dá prazer? Por que insistem em fazê-la engolir e respirar o que todos respiram? Por que não deixá-la desenhar e colorir seus passos sem circular uma linha de limite a eles?

Por que dança sozinha a menina a tentar entrar no tempo o qual impróprio é dançar assim?

sábado, 20 de março de 2010

Simplicidade...


Tão simples tudo isso!
O olhar dessa criança
olhar que chora, , dança...
e diz o que quer dizer
na sua magnitude do querer.
Olhar que brinca de boneca...
que sonha e se delicia na fantasia,
sem nenhuma preocupação...
pode você sentir essa canção?

Olhar que nos salva desse lugar,
até que eu vá colorir com as cores do arco-íris.
Pintando a historinha do pensar, do sorrir...
Pode você sentir?

A tardinha cai, hora de dormir...
de dissolver-se em meio aos sonhos
daquela criancinha...que fecha seus lindos olhinhos,
a continuar na simplicidade dos mimos, dos caminhos...
de colorir aquela canção...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Poema do Sol

Izabella Pena
Sol que dá vida
Que ilumina, aquece, regenera...
Mas sol também da solidão
e do soluço que causa
a perda de uma paixão

Sol da solitária solista
que vê o sol em simples notas soltas
constantes, sólidas, solícitas
soladas naquela velha viola
que silenciam os solilóquios
e também a sola dos meu sapatos

Sol das notas que invadem o salão,
enquanto a viola gentilmente chora
solenes notas que assolam, isolam
e dissolvem o sol da solidão.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ingenuidade


Izabella Pena
Aumente o rádio
Semente no campo
Comida pro gado
A fome acabou
com a mente na mão

Mas a semente é cara
E, se por acaso há,
mente prudente,
desmente veemente
e acaba sua história.

Ao acabar, recomeça:
Aumente o rádio...
querem ouvir
a fome acabar

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sem sobra ao título


Izabella Pena
Segredo que sempre se sentiu
Suscinto o sopro sussurrado
sobre o solo salgado
e somente sobra o sertão solitário
sem sorte, sim senhor...
Só morte, sangria o suporte!
sangueira é sambada
em sequaz sepulto
e, saltita o senhor.
Serra a serra serrada
serrania seviciada
nos silencia, segreda
e sintetiza a solidão

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Leis da Estressodinâmica

Izabella A Pena

Estávamos eu e meu amigo Chico Lobo jogando futebol hoje quando tivemos um insight sobre as condições físicas que explicam o contágio do estresse entre os animais humanos. Foi de um parto normal e simples que nasceram as primeiras leis da Estressodinâmica.

Normalmente nervoso e chingador, Chico resolveu chingar os outros colegas de futebol e incitá-los à raiva. Conseguiu, causando conflitos e estresse coletivos, principalmente em outro futebolista, chamado Quelé.

Percebemos, pois que corpos em contato (seja um contato corporal, verbal ou visual) com diferentes valores de Coeficiente de Estresse (ou Stress coefficient - Sc), o corpo de maior Sc tende a passar stress para o corpo de menor Sc até que atinjam um mesmo grau de estresse, o equilíbrio estressodinâmico. Estresse seria, portanto uma forma de energia em trânsito, como exemplificado na figura 1.

Porém, ao verificar a efetiva passagem de energia em trânsito do corpo de maior Stress coefficient (Chico Lobo - "A") para o corpo de menor Sc (Quelé - "B"), percebemos que ao entrarem em contato com um terceiro corpo (Cabranhas- "C") foi possível a verificação de uma passagem de estresse para o terceiro corpo. Em sistema hermeticamente fechado, o Sc se manteve em equilíbrio estressodinâmico entre os três corpos, mostrando que na impossibilidade de dissipação de estresse, a energia se conservou no sistema e o coeficiente (Sc) se manteve constante. Estas observações caracterizam a Lei zero da Estressodinâmica, que postula que se "A" e "B" são dois corpos em equilíbrio estressodinâmico com um terceiro corpo "C", então "A" e "B" estão em equilíbrio estressodinâmico um com o outro, ou seja: o coeficiente de estresse do sistema é o mesmo.

Aumentando o número de dados avaliados e situações analisadas, pudemos reunir provas e informações importantes para criar a Primeira Lei da Estressodinâmica. Verificamos que havia uma relação diretamente proporcional entre o coeficiente de estresse individual e a realização de trabalho. Assim foi observada uma maior disposição para irritação do corpo B após a transferência de estresse oriunda do contato com o corpo A. Isso mostra que em um sistema quimicamente isolado no qual há transferências de estresse (Sc) e realização de trabalho (W), há uma conservação de estresse aplicada.

Com base em dados experimentais adicionais, obtidos através de experimentos com mulheres em períodos pré-menstruais e de corintianos após os primeiros dias de segunda divisão, foi possível observar que as entropias dos corpos-alvo, isolados em sistema fechado, tenderam a incrementar-se com o tempo, até o alcançar de um valor máximo, portanto é possível que haja alguma relação entre o coeficiente de stress e a entropia do sistema. Isto é análogo a um sistema gasoso real e hermeticamente fechado, cujas partículas tendem a ocupar o espaço e realizar choques entre si, tal como se colocarmos mulheres em época de tensão pré-menstrual num sistema fechado... que não preciso continuar a descrever.

Porém, quando os corpos-alvo foram colocados para interagir com os corpos-cobaia (ex.: marido, colegas de trabalho, etc), o estresse (energia transitória) dividiu-se por igual até que o sistema alcançasse o equilíbrio estressodinâmico. A segunda Lei da Estressodinâmica postula que a energia total de um sistema fechado não se altera, e que dois corpos com desigual coeficiente de estresse rapidamente dão lugar a um estado de estresse uniforme à medida que a energia (estresse) flui do corpo com maior Sc para o corpo de menor Sc. Ao atingir esse estado, o sistema está em equilíbrio, como exemplificado na figura 1.

Figura 1: Representação esquemática do fluxo de estresse
Na tentativa de estabelecer uma equação matemática para o cálculo do coeficiente de estresse (Sc), foram relacionadas algumas variáveis que provavelmente têm papel fundamental no valor de Sc.
São elas:
  • Ct - Exemplifica o número de "chapéuzinhos" levados num dia de futebol (mais precisa para homens);
  • Dt - Número de dias de trabalho por semana;
  • N - Número de mulheres na casa;
  • F - Número de filhos;
  • A - Número de amantes;
  • Tres - Tempo restante para entrega de teses, projetos, trabalhos, monografias, deadlines, etc.;
  • Dr - Coeficiente de drogas;
  • m - Nº de dias restantes para a menstruação (apenas para mulheres).
Partindo da ideia de que o número de chapéuzinhos tomados num futebol aumenta o esrtresse de um homem(Ct), assim como o número de dias de trabalho por semana (Dt), as mulheres gritando e chingando em casa (N), as crianças choramingando e esperneando(F), e o número de amores que possui o indivíduos em estudo (A), que já mostra que quanto maior o número de rolos, mais dor de cabeça e maior o Sc. O Tres é quase essencial para a realização de estresse, sendo inversamente proporcional a Sc (já que, quanto maior o tempo disponível para a entrega de um trabalho, menor o estresse). O coeficiente de drogas (Dr) está clinicamente comprovado ser diretamente proporcional a Sc. E quanto ao número de dias restantes para a menstruação, a variável mais poderosa, relaciona a questão hormonal feminina à tendência ao aumento de Sc, já que é cientificamente comprovado o poder do Estrógeno no comportamento da mulher. Como a variável "m" não se aplica aos indivíduos do sexo masculino, será geralmente igual a zero. Eu disse geralmente, pois como minha prima Naira genialmente me recordou, para os casos de TMP extrema na qual a mulher ansiosamente desconta toda a sua raiva no homem mais próximo (através de atitudes de baixo calão), este valor deve ser considerado para o cálculo de Sc. Mas bem, essa variável "m" é que mostra que a mulher possui uma tendência natural à elevaçao de Sc.
Relacionando logicamente estas variáveis, foi possível estabelecer um termo matemático:Portanto, o estresse é uma forma de energia em trânsito e pode ser transmitida por contato entre dois corpos com diferentes valores de coeficiente de estresse. Tal qual a segunda lei, se queres reduzir seu coeficiente, basta o contato com alguém em menor patamar que o seu, e o fluxo de estresse ocorrerá espontâneamente!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Valsa eterna

Izabella Pena


Vigésima nota da canção onde se inicia aquela dança que a fazia rodopiar com guia e par pelo salão. Sabia dançar como um pássaro sabe voar. E, como se fosse um pássaro, voava... Sumia do mundo ao dançar assim, viajando para seu próprio universo, em seu próprio salão. Esquecia-se dos olhares curiosos que invejavam aqueles pés e pernas que desenhavam admiráveis passos. Valsava com o seu amado e desconhecido par. Dançavam com uma proximidade tamanha, como se já se conhecessem há anos dourados, anos amados e deliciados.

A música que a banda tocava estava tão em sintonia com os pés do casal que era como se os amasse. Como se amasse os olhares que, em ressonância com os ouvidos atentos à música, direcionavam a multidão para a dança desenvolvida.
Sim, a música os amava. Amava aquele casal iluminado pelas luzes do salão. E a música não queria que eles parassem. Não queria que o show acabasse.
Passadas algumas muitas horas, misteriosamente os artistas não conseguiam parar de tocar as músicas que faziam valsar o casal absorto em meio às notas. Assim caminhava a noite, e assim pareciam eternamente dançar o místico casal.
Quando se foi notar, era um novo dia. O show teve de ser interrompido, e o casal impedido de continuar a dança. A multidão, abalada, desceu as escadas. Os tocadores guardaram tristemente os instrumentos em suas caixas. A música, então, se dissipou em meio à luz que entrava das janelas. E o homem que tanto esteve em sua intimidade, juntamente com a luz e a música, se perdeu em meio ao fim de tudo.

Tal como veio o dia, chegou a noite. Um novo baile se iniciaria em instantes, e estavam todos ansiosos para admirar novamente a bela dama a valsar. Logo ela entrou no salão, com uma beleza irradiada por seu corpo, rosto, cabelos e pelo seu doce olhar. Vestia um delicado vestido e os mesmos sapatinhos do outro baile. Olhou à sua volta e estavam todos lá. Exceto o desconhecido amado par da noite anterior. Onde estaria aquele que, tão elegantemente, a conduziu pelo salão por toda a noite? Onde estaria aquele que, por ela e com ela, foi amado pela música e pelos olhares?

Não, não estava lá aquele homem que a amou por toda a noite em sua dança. Engraçado como se sentiu vazia ao perceber sua ausência. A ausência de um homem que sequer conhecia que sequer tinha o conhecimento de seu nome. Jamais sentira isso por alguém, essa dor estranha, desafinada, desadornada, simplória...

Mas, como era de se esperar, um novo par surgiu em meio à multidão e à ela estendeu a mão. Um exímio cavalheiro. Novamente se iniciou a música, mistura de violão, violino, violoncelo... e com um tão belo casal a bailar. Tal como antes, dançou lindamente a moça. O novo desconhecido sabia, tal qual o da noite anterior, como guiar a dama e rodopiar pelo salão. Novamente ela fechava os olhos e se deixava levar pelos acordes e pelos passos de seu novo par.

Ela o amou tal como amou o par da noite anterior. O sincronismo dos dois novamente direcionou os olhares curiosos da multidão aos seus pés, passos e rodopios. “Venha, pode chegar! Veja como dança bem aquela moça!”. E como dança bem aquela moça!

Em seus olhos fechados, calados, guiados, se via um filme de sua vida. A dança era como uma volta ao passado e uma libertação ao futuro. A volta ao passado se dava à medida que, ao desenvolver a dança, lembrava-se de coisas gostosas como bailar. A liberdade estava na leveza dos passos, que a fazia voar pelo salão.

Então, ela olhou nos olhos do seu par, mas não conseguiu os ver. Estavam fechados, meditantes. Entre a madrugada valsando num salão longe dali. Entendendo o recado, fechou seus próprios e voltou a dançar longe dali com ele. Como se já fosse o tempo em que sonhava em nunca mais parar de dançar. Assim caminhou a noite e novamente chegou o dia.

A luz, tal como no dia anterior, fez sumir tudo e todos.

E ela novamente ficou só, num dia cinza e sem som. Como ocorrera em outrora, não sabia sequer o nome do par que tanto amou na noite que acabara em instantes. Sequer os olhos conseguiram ser admirados. Tudo o que queria era saber o nome daquele insigne dançarino.

Foi então que, de relance, viu um vulto a sair do salão. Ela não conseguiu distinguir muito bem de quem era. Mas alguma coisa em seu interior a dizia que era ele.

Correu em sua direção e o alcançou. Era ele. Era sim o seu amor daquela noite! O seu amante que a amou na dança e nos passos.

Perguntou-lhe, afoita, seu nome. Não queria cometer o erro daquela outra noite, a qual passou sem que perguntasse o nome do par.

“Qual é o nome de ti, amor de minha dança? Quero saber quem é o homem que tanto amaram meus passos”.

Ele então respondeu que era a música.

E assim, foi embora. Sumiu em meio à luz do dia, sem mais explicações.

A moça, decepcionada com tal resposta e se sentindo ignorada, voltou ao salão onde estavam os tocadores. Eles estavam a terminar um café, e estavam prestes a começar a embalar os instrumentos e equipamentos de som. A bela mulher, então, teve uma idéia.

Pediu aos homens que tocassem uma música qualquer. Talvez uma das que foram tocadas na noite do baile.

E, à vigésima nota, ela percebeu o que as palavras do seu amado par desconhecido pronunciaram. Não era a eles que amava a jovem. Era a musica o seu grande amor. Era ela que ditava os passos, e se materializava em seus pares. Seja qual for o par que com ela dance, o amará. Seja qual for o par, o passo e o bailar, ela amará a música que incondicionalmente a levará pelo salão.

E assim, a moça amou por toda a eternidade, dia após dia, baile após baile, par após par.

domingo, 23 de março de 2008

Insensível

Izabella Pena
Se sabes que estou aflita
pela resposta embutida
naquele silêncio que grita
por detrás da porta, à sala vazia

com o vento que sopra,
balança aquela cortina
e levanta, levemente
mechas de cabelo e só..

injetai, pois, as ampolas,
trocai as fechaduras e chaves
invertei as ampulhetas do tempo,
dançai a música do vento
causai a inlucidez
movei a peça do xadrez
sofrei uma última vez...

e tentai
sentir da próxima vez...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O chá

Izabella Pena
Conheci uma velhinha esses dias. Sabe aquelas velhinhas de cabelos branquinhos, bochechas róseas e cheiro de histórias pra contar? Desse estilo. E ela me contou uma história da vida dela que me impressionou.
De uma grande inteligência e apurado conhecimento homeopático, a velhinha sabia fazer diversos tipos de medicamentos e garantia que conseguia curar muita coisa! Certa vez, ela saiu a procura das ervas mdicinais e encontrou algumas de cheiro diferente em abundância numa serra mineira. Levou-as, interessada por descobrir que efeito especial elas causariam. "Algo especial devia ser" pensava, por possuírem tal cheiro singular seus achados. Misturou-as com água e aqueceu para fazer um chá. Retirou do fogo e serviu em xícaras. Sem receio, bebeu ainda quente. Lembro-me de suas palavras "bebi quente pois estava com a garganta dolorida, e chá quente ajuda a aliviar a dor. Minha filha, é uma delícia esse chá!". E nesse instante, de súbito a reação ocorreu e a velhinha se transformou por completo! Começou a ver a vida com outros olhos, as flores estavam mais floridas, as cores estavam mais coloridas, e os cheiros estavam mais fortes. Foi aí que ela desvendou todos os segredos do mundo.
Sem falar nada com ninguém, pegou uma grande cesta e voltou à serra de onde colheu as ervas e colheu mais um punhado. Levou-as, plantou-as nos fundos de sua casinha,e criou mais uma grande diversidade de combinações dessas ervas com outros componentes. Moeu-as com grãos de café e fez um café delicioso no dia seguinte para os filhos e netos, que experimentaram e tiveram a mesma nova percepção do mundo que teve a senhora.
Ela então, entendeu sua missão na Terra. Comprou o terreno baldio do lado de sua casa e plantou mais das ervas. Começou a colher e fazer chá, moer com o café, com o milho... e montou um pequeno estabelecimento onde servia diversas combinações de cafés, ervas, chocolates, chás, bolos, doces etc. Todos os que bebiam ou comiam do que a velhinha servia, sentiam a mesma metamorfose que ela.
A velha senhora, um dia, ficou assustada. Teria criado uma nova droga? Será que as pessoas viciariam-se nela? Será que o poder alucinógeno desta geraria problemas psíquicos e de saúde nos usuários? Ela acalmou-se então, pois percebeu que já estava bebendo do chá de suas ervas há muitos e muitos anos e nada havia acontecido com ela. "Só estava mais, mais, mais..."! Nem haviam palavras que descrevessem o que sentia!
De toda forma, as ervas não podiam simplesmente se chamarem "ervas", precisava dar um nome à elas. Escolheu o nome "ilusão". Ninguém sabia o que era ilusão antes da velha senhora. E aquela dose homeopática diária de ilusão que a senhora distribuía e vendia a quem quisesse trazia conforto a muitas pessoas.
Um dia, um cientista famoso, curioso por estudar os efeitos da tal ilusão após ouvir milhões de comentários sobre estes, resolveu ir à casa daquela dona pra experimentar, que o acolheu gentilmente. Ele experimentou e se sentiu tão alegre e tão de bem consigo, que parecia flutuar sobre tudo. Realmente sentiu-se imerso numa mistura de sensações maravilhosas, exatamente como lhe tinham descrito as pessoas que experimentaram. Assim, chamou essas sensações de "Felicidade". O cientista escreveu muitos livros sobre a dose de ilusão e sobre a felicidade, e este conceito se espalhou por todas as partes do planeta.
Muitas pessoas ficaram sabendo da velhinha por meio da grande fama da felicidade no mundo inteiro. Então, ela aumentou a produção de ilusão, e saiu distribuindo para todos em todo o mundo, enchendo o mundo de ilusão e, consequentemente, de felicidade. Seria então a tal da felicidade uma ilusão ou a tal da ilusão uma felicidade? Difícil dizer.
Ela então, criou o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, a fábula, a fantasia, a ficção, o amor, a paz, a riqueza... e tantas outras coisas que nem sei dizer quantas.
Só sei que depois de uma tarde muito prazerosa de boas conversas com a saudosa velhinha, esta me ofereceu chá de ilusão. Experimentei. E entendi tudo! Desde então, tomo uma dose de ilusão todos os dias.





Moral da história: mesmo que a felicidade venha a ser uma ilusão, queremos essa ilusão todos os dias, e ela nos conforta. Ter a ilusão de que seremos felizes nos faz querer mais e mais nossos objetivos alcançar, e de tanto tentar, conseguimos! Acho ser utópico alcançar a felicidade em sua plenitude, mas é de pequenas conquistas e pequenos avanços, que construimos o que seria uma parte dela, mesmo que pequena, momentânea e efêmera. Por isso, tomamos uma dose de ilusão todos os dias, e essa busca incessante pela felicidade durará dia após dia, dose após dose.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Uakti


Uma flauta soava no começo. Se iniciavam seus passos.
Fazia seu som, cada passo de uma vez, em seu rítimo especial, singular. Sua respiração ditava o tom da música que tocava a multidão.

Enquanto isso, surgia um outro som distinto, gerado pelo bater em alguns canos enfileirados gerando algo similar ao som de um baixo, porém diferente...diferente. Logo depois entrava o som doce do xilofone... Todos em perfeita sintonia, cada um do seu jeito, cada um na sua harmonia. E eles alternavam entre si, tocando todos os instrumentos que estavam no palco. Instrumentos
incomuns, originais....de madeira, cabaças, vidro, metal, pedra, bambu, tubos de pvc, borracha...O que mais me surpreendeu foi o que eles nomeiam "Aqualung", no qual a água caía devagar em um tubo, e produzia notas dentro da escala musical.

Um tanto quanto inexplicável, talvez quem estivesse lá compreenda o que senti... A incomparável atmosfera da mensagem que circulava entre nós. Uma mensagem diferente, quase como uma metáfora. Uma incógnita, direi. Uma incógnita que me tocou e estou tentando entender até agora. Impressionante como o diferente nos atrai, impressionante como o diverso, o desigual e o
inexato são tão interessantes. Os sons estão aí para serem misturados, para que possamos experimentá-los! E essa mistura orgânica, inusitada se situa além do erudito e do popular e, ao mesmo tempo, é tão profunda quanto o silêncio.

A mistura musical do doce com o
salgado é realmente deliciosa!

E o sabor é como vi num blog esses dias:
"tranquilamente acaricia nossos pés
retorna ao seio do mar profundo
à sétima molha-nos até aos joelhos"


Ah.... e um "PS" básico:
"
Uakti era um ser mitológico que vivia às margens do Rio Negro. Seu corpo era repleto de furos que ao serem atravessados pelo vento emitiam sons que encantavam as mulheres da tribo. Os homens perseguiram Uakti e o mataram. No local onde seus restos foram enterrados nasceram palmeiras que os índios usaram para fazer flautas de som encantador como os produzidos pelo corpo de Uakti."

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Dramalhão

Izabella Pena
Lembra-se daquele sorriso que você me deu?

De presente...
Virou um roteiro e uma tentação
Meu lápis, sem ponta, tenta escrever no papel
O segredo de sempre do dramalhão.

O que você faz?
Quer saber como foi meu dia de hoje?
Aproximai os que não temem a solidão
Contemplai aqueles que não esquecem uma paixão

E o dramático ator toma suas drágeas
suas dores...
e transforma suas lágrimas
em seus muitos amores
e seus muitos em apenas um

Um que gera a trama
enobrece o drama
que meu lápis, sem ponta, insiste em tentar escrever
Insano, efusivo, cromático...

A trama então ganha cena
Ganha personagens, cenário, palco, platéia
E mal sabe o respeitável público
que sim, verdadeiras são!
As lágrimas no dramalhão...

domingo, 18 de novembro de 2007

Dicionário de termos populares

Izabella Pena Neshich

  Hoje passei um bom tempo conversando com minha queridíssima avó Dirce que, ao longo de seus muitos causos e histórias, inseria raros termos populares. Eu, um tanto curiosa, e querendo conhecer mais sobre a linguagem local de um município no interior de Minas Gerais, pedi a ela que discorresse sobre algumas palavras por ela usadas e que são comuns na região onde vive. Anotei-os, bem como seus significados e, depois de umas boas risadas, resolvi compartilhar esse pouquinho de cultura com você que está lendo esse texto agora.

  Esses são alguns termos interessantes usados pelas pessoas da roça mineira e que me chamaram a atenção. Confesso que alguns eu inclusive uso! E adoro usar. Usando, passo para o interlocutor um pouquinho dos costumes de minha família e do povo da região. E que legal perceber que a nossa cultura brasileira é ainda mais interessante e diversificada do que se imagina! Os neologismos, as palavras adaptadas, os significados, as origens variadas...

  Gostaria de reforçar que se por acaso quiser procurar no dicionário, creio que muitas palavras não serão encontradas. Porém não são neologismos de minha própria avó, uma vez que outros moradores do local também compartilham deste conhecimento.

Jacú : Pessoa boba, lerda ou que acabou de cometer algum tipo de gafe;

Pistolo: Alguém "jacú", muito bobo;

Puaia: Pessoa chata, enjoada e/ou irritante. Segundo minha avó, a origem do termo "puaia" está relacionada a uma fruta da região que recebe esse nome e tem gosto extremamente amargo;

Sambanga: Um pistolo, pessoa boba.

Íngua: Puaia, gente chata e/ou irritante;

Pustema: Pustema, segundo as pessoas da roça, é aquele machucado que dói, com sensação de latejamento. Associam, pois, às pessoas que irritam e pisam nos pontos fracos dos outros;

Purgante: Pessoa amarga, que gosta de provocar os outros;

Sungar: Levantar (Ex.: Sungar as calças);

Pisteba: Pessoa sambanga, boba;

Patureba: Pessoa sambanga, tola demais e mais lerda que o normal;

Ativa: Aquele que é sadio, espevitado;

Curisco: Aquele que é rápido e esperto;

Velhaco (pronuncia-se 'veiaco'): pessoa ativa e curisca que adora tirar proveito das situações;

Atentado: capeta, bagunceiro;

Carochar: Pode possuir vários significados, de acordo com o contexto. Exemplos: Enrolar, paquerar , contar mentiras, fazer trabalhos incorretamente.

Perrengue: Pessoa que está baqueada, cansada e/ou lesada;

Capioa: Pessoa que recarrega de hora em hora a sua tolice, sua jacuzice;

Sapecar: Dar uma despistada, uma "carochadinha", fazer coisas incompletas. (Ex: "fulano sapecou aquele relatório");

Barrão: Pessoa gorda;

Barafunda: Mulher fácil;

Roncolho: Homem estéril;

Bisca: Pessoa falsa, má;

Cantar o carrinho: Falar mal dos outros;

Anca: Quadril;

Ronceiro: Vagaroso, lerdo;

Enchamprada: Adjetivo exclusivo para caracterizar bundas retas, sem curvas;

Encurrunhado: Adjetivo específico à culinária fracassada quando, por exemplo, um bolo não cresce e fica com aspecto murcho, diz-se que este esta "encurrunhado".

Muncadinho: Diminutivo de pouco. Possui vários sinônimos: "tiquinho", "cadinho", "bocadinho", entre outros;

Bicho do mato: Pessoa tímida;

Rudo - Aquele com dificuldade de aprender;

Descanhotada - Aspecto do bêbado ao deitar-se em uma cama. Por exemplo, na frase "A Silvia estava descanhotada", entende-se que ela estava bêbada, deitada na cama com os braços para um lado, pernas para o outro, boca aberta e babando;

Bodoque - Estilingue;

Mamú - Sinônimo de jacu, sambanga, bocó, pistolo e patureba;

Suã - "Escadeiras" = Coluna lombar;

Enquijilar - Não crescer. Usa-se o termo enquijilado para caracterizar pessoas que não cresceram muito;

Encurrugado - Aspecto de pele seca e com rugas;

Dilurimento - Diarréia

Derrigar - Ato teatral de encostar-se na parede e deslizar-se dramaticamente até sentar-se no chão. Executado em momentos de tristeza extrema.

Empirriada - Galinha choca.

Bobiça - Fazer bobeiras, brincadeiras sem graça, embondos ou atitudes desnecessárias;

Embondo - Atitudes supérfluas e desnecessárias;

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Obsoleta canção

Ele olhava pra ela e sorria
ela então, retribuía
Mas a melhor coisa do mundo é o suor...
E a chuva que pegamos naquele dia!

Naquele dia, lembra?
Agora? Tem que ser agora?
Quero amarrar minha rede...
Então....beijos, tchau!

Quero tomar aquele vinho
Ouvindo aquele som esquipático
a entrar na ingenuidade dos meus ouvidos...
Como pude rir do seu riso sarcástico?

Que objetivava a objetividade do objeto
obsoleto o obrigado!
Parcimoniosa a hipótese que escolho
Entorpecer: cheiro, gosto, olho no olho...

E o obsoleto obsoletou o obrigado...

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Canção sem fim

Izabella Pena
Nada superava a beleza fria daquela garota, que deixava de propósito seus cabelos pelo vento serem levados e espalhados, causando aquele belo contraste de um dia sem graça com a morenice de suas mechas. E ela sabia que causava esse efeito, sabia. Sabia da beleza que possuía, e se sentia poderosa, fatal.
Abriu a janela de madeira escura do seu quarto e admirou a falta de graça de mais um dia como todos os outros. E ela se sentia a única aventura do dia, a única luz, a única sensação. Olhava para as pessoas nas ruas seguindo a monotonia diária, dos passos, dos braços, dos olhares. Como sempre, como será também amanhã.
Mas ela não. Ela não andava da mesma forma todos os dias. Suas pernas, desenhadas a mão, andavam dançando como se uma música levasse o vento que fazia seus cabelos bailarem com ela. E ela sabia...sabia que era a única graça do dia, a única graça do vento que tanto a adorava.
Então, ela se olhou no espelho. E a mulher que era se revelava mais uma vez, como tantas! Se olhava, olhava suas mãos, que eram grandes porém delicadas. Com seus dedos longos e finos, dedos de pianista. Ela então, sentia vontade de tocar. Se dirigia ao piano na sala, um belo piano preto, que de tão polido podia-se ver sua imagem refletida. Ela então, arrumava os cabelos em sua vaidade plena, e ajeitava o banquinho com delicadeza e com a sensualidade que só ela tinha. Vagarosamente, assentava e retirava o feltro que cobria as teclas meio amareladas do tempo.
Olhou-as antes de iniciar a melodia, e com movimentos lânguidos de seus lindos dedos, distorcia a realidade em meio a notas musicais que a circulavam e faziam com que ela fosse ainda mais espetacular do que era.
A música fazia com que sua monotonia não existisse. Ela não lia as partituras, tocava o que lhe vinha a cabeça, batia levemente os dedos onde tivesse vontade de bater... E a música era diferente, com uma sonoridade única que só ela sabia conduzir. Então imaginava um saxofone ao seu lado, acompanhando seus dedos, seu corpo que dançava delicadamente de um lado a outro e seus olhos que fechavam vagarosamente e abriam com um movimento da cabeça para trás. A música soava lenta e prazerosa. De repente uma multidão se aglomerava, e todos queriam ouvir o som...
Então, ela deixava o saxofone conduzir a música sem escrita, inventada no momento... Se levantou e caminhou, sensualmente levada pelo sopro divino daquele que conduzia o espetáculo. Todos os olhares se direcionaram aquele caminhar, e ela percebera que era o centro das atenções agora. Sabia, queria e gostava. Que mulher não gosta de se sentir sensual, linda e desejada? Percebendo isso, continuava seu desfile. E a sensualidade de seus movimentos se misturava com a do sopro do saxofone, que ditava uma dança. Que ela executava com alguns passos leves e lentos, em busca de alguém daquela grande plateia para acompanhá-los. E escolheu um felizardo para ter a digníssima honra de com ela dançar.
Dançaram pois, os dois, por tempos ao som daquele instrumento que ditava os passos e, em meio aos rodopios e gestos a dois, ela viu o relógio pendurado na sala. Percebeu que dançavam há duas horas e que era hora de parar. Nesse instante, num piscar de olhos esvaia-se o saxofonista, com um gesto de cumprimentos, o dançarino e a plateia.
Mesmo sem o público, ela desfilava. Desfilava para ela mesma, se admirava assim. Desfilava em direção ao espelho, seu amigo espelho, que lhe revelava sua imagem, seu exterior. E levava suas magníficas mãos aos cabelos, penteando-os com seus dedos. Passava um batom e só. Não precisava de maquiagem que realçasse sua beleza. Ela por si já se realçava.
Toda essa preparação era para que seu dia não fosse insosso e monótono como o das pessoas que havia visto na janela duas horas atrás. Com os mesmos passos, os mesmos gestos, os mesmos olhares... Ela não. Tinha a mesma sensualidade, mas que lhe modelava novos passos, novas melodias, novas audácias, novas disputas, novos caminhos...
E naquele dia estava decidida a traçar um novo caminho. O saxofonista então voltava a sua mente, e aquela música tão sensual invadia-lhe novamente os ouvidos, fazendo-a fechar os olhos. Na inspiração da musica, de sua beleza, dos seus cabelos, mãos, dedos, olhos...
Então, se sentiu um pouco sozinha. Queria um abraço gostoso, um beijo sedutor. Talvez mais sedução do que continha seu corpo não existiria, mas queria a sedução de um homem agora. Saiu então. Sabia que conseguiria a atenção do homem que quisesse, com a exuberância de sua beleza. Mas queria a companhia daquela música que a fazia voar. O saxofonista foi atrás pois.
Agora o vestido de tecido leve traçava com o auxílio do vento as curvas daquele corpo que a todos os homens era objeto de desejo. A cada passo, o vento mais modelava, e fazia voar seus cabelos. Seus olhos fixavam o caminho, buscando um olhar... Olhares eram tantos os que fitavam-na e desejavam-na. Ela podia escolher, sabia disso. Mas qual escolher? Qual o olhar que estaria em sintonia com o seu? Então parou, e vários homens seduzidos, hipnotizados por tanta beleza se aproximavam. Com uma das mãos na cintura, e uma pose de manequim, olhou a sua frente, e não achou o que procurava. Então fechou os olhos novamente, e tentou pois descobrir qual a origem do seu desejo, a origem da sua vontade.
Ouviu então o saxofonista, alguns metros atrás de onde estava. Ele conduzia a festa, conduzia seus passos, o vento que grudava em seu corpo, os cabelos que bailavam. Desejou-o pois.
Fatal, sedutora, em sua direção foi. Fixou seu olhar no rosto dele. Que tinha os olhos fechados levados ao prazer de tocar. Fechados e dançando à melodia que criava, que como aquela garota, era variada, original, de várias notas e vários tons. Ela se aproximava. Seus passos íam ficando mais leves. Até que chegou a sua frente. E ele continuava em seu prazer incomensurável por tocar aquele sax.
Ela então, viu que com toda a sua majestosidade e sensualidade ainda não era párea para a música. E que aquele saxofonista estava alcançando o prazer máximo físico e moral com aquele ato. Nem a beleza inenarrável daquela mulher conseguiu despertar de aquele saxofonista.
Então, ergueu-se a garota.
Foi a sua casa novamente, seguida do saxofonista. Sob aquele vento de um belíssimo outono, que levava as folhas para sua casa, e espalhavam-nas sobre o chão. Seus cabelos e seu corpo continuavam a voar com as folhas, e ela percebeu como saciar o seu desejo de beijos e abraços, da forma que queria, com quem queria. Assentou-se com lubricidade novamente em frente ao piano, e dessa vez acompanhou o saxofone. Ele ditava as regras e a melodia continuava lindamente, e por incrível que parecesse, maravilhosamente melhor.
Aquela mulher ia sentindo, sentindo, tocando, tocando, batendo os dedos com calma e força, vagarosamente e rapidamente. O prazer invadia-lhe e tomava-lhe. Fechava os olhos. Soltava algumas palavras. Sorria. E seu sorriso era tão belo quanto a música que tocavam juntos aqueles dois. Amantes, amantes da música, do prazer... e iam se amando através da sintonia de seus instrumentos e de suas melodias.
E assim, nunca mais pararam de tocar os dois...