Izabella Agostinho Pena Pelas ruas vagava aquele pobre menino. De cabeça baixa, olhos fixos no chão. Se movia em direção à uma suave música que ouvia, longe e baixa. Os carros passavam ao seu lado, e ele sequer notava, nem mesmo o seu som. Em seus ouvidos, somente a bela música. Assim, chegou a uma praça, onde havia um tocador de flauta, ganhando uns trocados. Enfiou a mão no bolso e nada. Nem um tostão para pagar aquele ser que cantava sua alegria.
E num piscar de olhos o músico se multiplicou numa orquestra, e o pobre menino viu a praça se transformar num grande baile. Assentou-se num banco e pôs-se a contemplar a beleza dos vestidos, os passos ensaiados... Tudo e todos em perfeita sintonia.
De repente, alguém colocou a mão em seu ombro. O menino levou um susto tão grande que se tornou furioso. Era seu pai reclamando sua ausência no trabalho, já que não estava no sinal pedindo esmolas como seus irmãos. O menino disse que já iria voltar.
Quando virou-se novamente para contemplar o belíssimo baile, já não mais havia nada. Nenhum tocador, nenhum vestido, nenhum passo ensaiado. Nem mesmo o flautista com seu humilde pote de moedas. A tristeza lhe consumia e corroía seu interior. E tudo isso porque seu pai lhe encostara as mãos nos ombros, tudo por culpa dele. Olhou para seus irmãos. Tristes, pobres, pedindo esmolas...E chorou.
Fugiu. E não mais trabalhou naquele dia.
Sentiu fome, muita fome. E voltou para casa. Chegando lá, foi espancado cruelmente por seu pai. Percebeu que só encostavam nele para destruir seus sonhos, suas fantasias. Sentiu que o contato era sempre prejudicial e decidiu, naquele dia, que ninguém mais nele encostaria.
Sentiu sede. Ao pedir água à sua mãe, que por sinal também estava furiosa com ele, esta lhe deu um tapa na boca, que não matou sua sede. Mas ele não sentia mais dor. Não mais tinha sentimentos, era sozinho agora. Gostava de ser só... É isso, era feliz sozinho.
O tapa de sua mãe silenciou seu já ferido coração. E não mais falou.
Dormiu sentado num canto da parede de tijolos inacabada de sua pequena “moradia”. Dormiu pensando no medo de viver. E acordou pensando e falando com os olhos. Não respondeu a nenhuma pergunta de ninguém com palavras.
Tomou um café amargo e foi para a escola, como todos os dias, porém hoje estava diferente. Não era mais o mesmo.
Sentou na última e mais isolada carteira. Notando o diferente comportamento de seu colega de turma, a menina Clara, ou melhor: Clarinha, assentou-se ao seu lado e tentou conversar, mas fracassou. Ele não falava absolutamente nada. Olhava fixamente para sua caneta, em cima da mesa. Parecia estar em outro mundo ou viajando por várias dimensões. Nem se deu conta da presença da doce garotinha. E furiosa, ela se posicionou ereta na carteira e olhou fixamente para a professora que começou a aula.
E assim foi durante toda a manhã.
Chegando em casa, faminto, seus pais o obrigaram a trabalhar. Foi para o semáforo indicado com algumas balas. Mas não conseguia falar, parecia bloqueado. Quando os carros paravam, ele abaixava a cabeça e mostrava os produtos, sem pronunciar uma só palavra, apenas gesticulando e mostrando as balas com os dedos. Ao menos tentou.
Chegou em seu barracão tarde da noite, sem uma moedinha sequer nos bolsos. Neles, havia apenas o silêncio e a escuridão.
O dia amanhecia, e ele via os raios solares penetrantes em sua residência. Mas era muita luz, não conseguia mais olhar para locais iluminados. Abaixava a cabeça e colocava a mão sobre os olhos para seguir o percurso a pé até sua escola. Lá estava Clarinha, assentada no mesmo lugar.
Fazia mil perguntas, mas nenhuma resposta obtia do menino. Ele, sempre calado, fingindo não prestar atenção em nada. Pedia-lhe que olhasse para ela, que lhe desse atenção, pronunciasse um "a" sequer! Mas ele não conseguia mais. Era muito duro e difícil olhar para alguém.
No intervalo do lanche, foi ao banheiro e viu em seus braços as marcas da violência de seu pai algumas noites atrás. Os braços ainda doíam, e estavam manchados de ódio e tristeza. Os lábios ainda continham alguns hematomas. Era o que tinha de seus pais em seu corpo, em sua mente. Era esse o amor fraterno que conhecia, ou melhor: que jamais conheceu.
Foi para o pátio e ficou assentado num canto, isolado e amuado, criando uma fortaleza a sua volta. Olhando sempre para baixo. Foi aí que viu dois lindos pezinhos, delicados e limpinhos. Era Clarinha, ele sabia que era ela. Mas não olhou para a menina, não conseguia, não tinha coragem. E como sempre, nada falou.
Naquele dia Clara percebeu que estava completamente intrigada para descobrir que mistério rondava a vida daquele menino. Estava curiosa para saber porque ele tinha aquele jeito diferente de viver. Queria pois descobrir. Por isso, fez mil perguntas. Ele, sempre estático, olhando as pedras no chão. E viu que entre as pedras, havia uma diferente, redonda, lisa, grande.
Aquela pedra, em contraste com as outras tantas disformes e assimétricas, era diferente. Pegou-a em meio a tantas palavras de Clarinha e admirou a forma, a cor... E pensou: “Sou como essa pedra. Diferente, solitária, estática”. Assim como o dele, era o cotidiano daquele ser inanimado, que preenchia quase toda a palma de sua mão. Sentiu-a e observou seus detalhes.
Clarinha, curiosa e espantada, assentou-se no chão e admirou a essência da cena que se passava. Era de uma emoção tão singela, que a pedra parecia compartilhar algo com o menino.
Foi para casa pensativa. E decidida a continuar indagando para descobrir o segredo, ou o mistério que corria no silêncio daquele menino.
Com a pedra em seu bolso, o menino percorreu o mundo em suas fantasias. E com ela, viu novamente o lindo baile que tanto o tocava e alegrava. Não mais pediu dinheiro ou vendeu balas no sinal. Os pais o “demitiram” após o fiasco do dia anterior.
Olhou novamente para a pedra redonda. Ela podia responder, conversar e falar por ele. Eram a mesma coisa, tinham os mesmos sentimentos, isso era ótimo! Já que era igual ao menino, falaria por ele, já que tinham a mesma opinião. Por isso, quando Clarinha assentou-se ao seu lado no intervalo, a pedra ficou entre eles. Achando estranho aquele fato, a menina fez perguntas e mais perguntas. O menino ouvia e respondia mentalmente, movimentando a pedra, como se ela respondesse por ele. O mais estranho é que mesmo sem olhar para os olhos de Clarinha, ela parecia captar o que respondia. Assim, eles se comunicavam e se entendiam. Mesmo sem a voz e o olhar do menino.
Assim foi por alguns anos. Até que a doce Clarinha criou um vínculo muito forte com o menino. E a paixão pelo oculto e pelo mistério faziam com que ela o adorasse, o achasse fantástico.
Um belo dia, ela decidiu expressar seus sentimentos, e contou para uma amiga que estava apaixonada pelo menino. Um amor inexplicável, sem olhares e sem palavras. Zombaram da doce garota, mas ela não se importava. Palavras não afetam um ser apaixonado, pois ele se baseia no amor. E o amor é um sentimento, não se baseia em palavras ou gestos, e sim na essência que unia os dois.
Nesse mesmo dia, ao assentar-se com o menino no intervalo e ver a pedra entre os dois, a garota falou sobre o que sentia, de sua admiração pelo humilde menino. Falou tanto, que não havia nem perguntas. Foi um desabafo, e a pedrinha não tinha nem o que dizer.
O menino sentiu algo diferente naquele momento. Alguém realmente se importava com ele. Clarinha sentia algo por ele. Mas como? Jamais alguém sentiu algo por ele, jamais! Isso era impossível!
Foi para casa e dormiu. Sonhou com Clarinha pela primeira vez.
Acordou assustado com um barulho estrondoso. Um tiro, um grito, um silêncio. Se escondeu, com medo e sentiu o alvoroço, a correria, a confusão. E por baixo da porta via o sangue. Era o sangue de seu irmão João, morto na porta de sua casa. Mas teve medo, e ficou quieto no lugar onde estava.
Enterraram João. Todos tristes, chorando desesperadamente. Menos ele...menos o menino. Ele não derramou uma só lágrima, não tinha essa capacidade de chorar mais.
- Seu coração é inerte como uma pedra!
A fala de seu pai atingiu perfurou essa pedra.
Chegando na escola, sentiu algo horrível! Clarinha colocou a mão sobre seu ombro, e o contato gerou uma descarga elétrica que circulou por seu corpo, fornecendo energia para bater aceleradamente seu coração. Ninguém lhe tocava desde o dia em que fora espancado pela última vez. O medo e o susto fizeram-no correr. Corria, segurando e abraçando a pedra fortemente contra seu corpo. Chegou na praça dos bailes, assentou-se no banco e tentou se acalmar.
Pela primeira vez, alguém tocou-o sem qualquer agressão. E sim, ele havia sentido aquilo. Pegou a pedra e a viu. Estava estática, em contradição à sua ofegante respiração. Percebeu que ela não parecia sentir como ele se sentia naquele momento.
Clarinha se sentiu ainda mais agitada e determinada a continuar explorando o antes inexplorável. E no outro dia, não encostou nele, com medo de que fugisse novamente. Queria estar ao seu lado ao menos. Sentir seu coração batendo forte na presença do dele. Isso a deixava feliz. Desse dia em diante, escreveu inúmeras cartas, declarando-se.
Um dia, tomou coragem e disse “Eu te amo” para ele. Tímida, correu.
A pedra, no entanto, não tinha respostas para tudo aquilo. Ela não podia responder a uma declaração de amor. Ele, de repente se situou no mundo, bastante assustado. Dessa vez, ELA correu, e não ele. Sentiu seu coração se disparar como jamais batera antes.
A noite nunca foi tão longa para aquele pobre menino. Foi para a praça e assentou-se. Enfiou suas mãos em seus bolsos, e para sua surpresa, não havia apenas a pedra, o silêncio e a escuridão. Havia uma boa quantidade de cartas e bilhetes, nos quais ele sempre evitara encostar. Eram dela. Tomou coragem e pegou um deles. A pedra estava num lugar fundo, bem fundo no seu bolso. Olhou-a atenciosamente. Era sem graça, insossa, e não mais lhe servia para conversar com a doce Clarinha. “Doce? Doce garota? Pensei isso? Sim...pensei.”
Então, ao invés de a pedra pensar por ele, ele pensou por si. Libertou-se de seu silêncio de tantos anos, balbuciando o nome: “Clara” à pedra. Como se desabafasse com alguém por telepatia, desabafou com a pedra. E “conversaram” por um bom tempo. Até que ele a guardou e voltou-se para a carta na outra mão. Abriu cuidadosamente o envelope. Estava desenhado, bordado com as letras da jovem. Leu, pois, todas as cartas.
Pela manhã, tomou seu café, porém dessa vez com açúcar, e foi para a escola. Ao ver Clarinha, ambos ficaram parados. De cabeça baixa, hesitou-se em pegar a pedra em seu bolso, a emoção e o nervosismo geraram um passo atrás, e um desequilíbrio que a levou ao chão. Ela rolou até os delicados pés de Clara, que a pegou.
Timidamente e lentamente, ela foi em direção ao garoto entregar-lhe seu bem tão precioso. E, ao abaixar-se e estender-te a mão com a pedra, ele levantou a cabeça, de súbito! Olhou seu rosto, num gesto que pareceu provindo de um esforço tremendo. Mas ao vê-la, pôde contemplar a doçura e o encanto de seu olhar. Parecia um anjo. E talvez fosse realmente um.
- A pedra...
Disse Clarinha, novamente mostrando-lhe.
Ele olhou a pedrinha, que parecia menor ainda em meio a dimensão daquele sentimento, daquele momento. E segurou o objeto firmemente. Olhando-a em suas mãos novamente, percebeu que pedras realmente não sentem.
A pedra não poderia amar por ele.
Então, jogou-a no chão e deu a mão a Clarinha.