Izabella PenaNada superava a beleza fria daquela garota, que deixava de propósito seus cabelos pelo vento

serem levados e espalhados, causando aquele belo contraste de um dia sem graça com a
morenice de suas
mechas. E ela sabia que causava esse efeito, sabia. Sabia da beleza que possuía, e se sentia poderosa, fatal.
Abriu a janela de madeira escura do seu quarto e admirou a falta de graça de mais um dia como todos os outros. E ela se sentia a única aventura do dia, a única luz, a única sensação. Olhava para as pessoas nas ruas seguindo a monotonia diária, dos passos, dos braços, dos olhares. Como sempre, como será também amanhã.
Mas ela não. Ela não andava da mesma forma todos os dias. Suas pernas, desenhadas a mão, andavam dançando como se uma música levasse o vento que fazia seus cabelos bailarem com ela. E ela sabia...sabia que era a única graça do dia, a única graça do vento que tanto a adorava.
Então, ela se olhou no espelho. E a mulher que era se revelava mais uma vez, como tantas! Se olhava, olhava suas mãos, que eram grandes porém delicadas. Com seus dedos longos e finos, dedos de pianista. Ela então, sentia vontade de tocar. Se dirigia ao piano na sala, um belo piano preto, que de tão polido podia-se ver sua imagem
refletida. Ela então, arrumava os cabelos em sua vaidade plena, e ajeitava o
banquinho com delicadeza e com a sensualidade que só ela tinha. Vagarosamente, assentava e retirava o feltro que cobria as teclas meio amareladas do tempo.
Olhou-as antes de iniciar a melodia, e com movimentos lânguidos de seus lindos dedos, distorcia a realidade em meio a notas musicais que a circulavam e faziam com que ela fosse ainda mais
espetacular do que era.
A música fazia com que sua monotonia não existisse. Ela não lia as partituras, tocava o que lhe vinha a cabeça, batia levemente os dedos onde tivesse vontade de bater... E a música era diferente, com uma sonoridade única que só ela sabia conduzir. Então imaginava um saxofone ao seu lado, acompanhando seus dedos, seu corpo que dançava delicadamente de um lado a outro e seus olhos que fechavam vagarosamente e abriam com um movimento da cabeça para trás. A música soava lenta e
prazerosa. De repente uma multidão se aglomerava, e todos queriam ouvir o som...
Então, ela deixava o saxofone conduzir a música sem escrita, inventada no momento... Se levantou e caminhou, sensualmente levada pelo sopro divino daquele que conduzia o
espetáculo. Todos os olhares se
direcionaram aquele caminhar, e ela percebera que era o centro das atenções agora. Sabia, queria e gostava. Que mulher não gosta de se sentir sensual, linda e desejada? Percebendo isso, continuava seu desfile. E a sensualidade de seus movimentos se misturava com a do sopro do saxofone, que ditava uma dança. Que ela executava com alguns passos leves e lentos, em busca de alguém daquela grande plateia para acompanhá-los. E escolheu um felizardo para ter a
digníssima honra de com ela dançar.
Dançaram pois, os dois, por tempos ao som daquele instrumento que ditava os passos e, em meio aos rodopios e gestos a dois, ela viu o relógio pendurado na sala. Percebeu que dançavam há duas horas e que era hora de parar. Nesse instante, num piscar de olhos esvaia-se o saxofonista, com um gesto de cumprimentos, o dançarino e a plateia.
Mesmo sem o público, ela desfilava. Desfilava para ela mesma, se admirava assim. Desfilava em
direção ao espelho, seu amigo espelho, que lhe revelava sua imagem, seu exterior. E levava suas magníficas mãos aos cabelos, penteando-os com seus dedos. Passava um
batom e só. Não precisava de
maquiagem que realçasse sua beleza. Ela por
si já se realçava.
Toda essa preparação era para que seu dia não fosse insosso e monótono como o das pessoas que havia visto na janela duas horas atrás. Com os mesmos passos, os mesmos gestos, os mesmos olhares... Ela não. Tinha a mesma sensualidade, mas que lhe modelava novos passos, novas melodias, novas audácias, novas disputas, novos caminhos...
E naquele dia estava decidida a traçar um novo caminho. O saxofonista então voltava a sua mente, e aquela música tão sensual invadia-lhe novamente os ouvidos, fazendo-a fechar os olhos. Na inspiração da musica, de sua beleza, dos seus cabelos, mãos, dedos, olhos...
Então, se sentiu um pouco sozinha. Queria um abraço gostoso, um beijo sedutor. Talvez mais sedução do que continha seu corpo não existiria, mas queria a sedução de um homem agora. Saiu então. Sabia que conseguiria a atenção do homem que quisesse, com a exuberância de sua beleza. Mas queria a companhia daquela música que a fazia voar. O saxofonista foi atrás pois.
Agora o vestido de tecido leve traçava com o auxílio do vento as curvas daquele corpo que a todos os homens era
objeto de desejo. A cada passo, o vento mais modelava, e fazia voar seus cabelos. Seus olhos fixavam o caminho, buscando um olhar... Olhares eram tantos os que fitavam-na e desejavam-na. Ela podia escolher, sabia disso. Mas qual escolher? Qual o olhar que estaria em sintonia com o seu? Então parou, e vários homens seduzidos, hipnotizados por tanta beleza se aproximavam. Com uma das mãos na cintura, e uma pose de manequim, olhou a sua frente, e não achou o que procurava. Então fechou os olhos novamente, e tentou pois descobrir qual a origem do seu desejo, a origem da sua vontade.
Ouviu então o saxofonista, alguns metros atrás de onde estava. Ele conduzia a festa, conduzia seus passos, o vento que grudava em seu corpo, os cabelos que bailavam. Desejou-o pois.
Fatal, sedutora, em sua
direção foi. Fixou seu olhar no rosto dele. Que tinha os olhos fechados levados ao prazer de tocar. Fechados e dançando à melodia que criava, que como aquela garota, era variada, original, de várias notas e vários tons. Ela se aproximava. Seus passos
íam ficando mais leves. Até que chegou a sua frente. E ele continuava em seu prazer incomensurável por tocar aquele
sax.
Ela então, viu que com toda a sua
majestosidade e sensualidade ainda não era
párea para a música. E que aquele saxofonista estava alcançando o prazer máximo físico e moral com aquele ato. Nem a beleza
inenarrável daquela mulher conseguiu despertar de
sí aquele saxofonista.
Então, ergueu-se a garota.
Foi a sua casa novamente, seguida do saxofonista. Sob aquele vento de um
belíssimo outono, que levava as folhas para sua casa, e espalhavam-nas sobre o chão. Seus cabelos e seu corpo continuavam a voar com as folhas, e ela percebeu como saciar o seu desejo de beijos e abraços, da forma que queria, com quem queria. Assentou-se com lubricidade novamente em frente ao piano, e dessa vez acompanhou o saxofone. Ele ditava as regras e a melodia
con
tinuava lindamente, e por
incrível que parecesse, maravilhosamente melhor.
Aquela mulher
ia sentindo, sentindo, tocando, tocando, batendo os dedos com calma e força, vagarosamente e rapidamente. O prazer
invadia-lhe e tomava-lhe. Fechava os olhos. Soltava algumas palavras. Sorria. E seu sorriso era tão belo quanto a música que tocavam juntos aqueles dois. Amantes, amantes da música, do prazer... e
iam se amando através da sintonia de seus instrumentos e de suas melodias.
E assim, nunca mais pararam de tocar os dois...